Reflexões para quem pensa em ‘dar o lavra’ de Recife

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(Foto: Daniel Tavares/PCR)

Cidade tem alma? Cidade tem personalidade? Você se vincula com sua cidade como se vincula àquele amigo que, com sorriso nos dentes, lhe tece um elogio e engrandece sua esperança? Recife parece que é vestida desse poder e magia, dessa força essencial a qualquer amizade sincera.

E vamos combinar que, com Recife, não se tem meio termo, ou nos sentimos sugados (e suados), ou caímos fora. Definitivamente essa terra não é para amadores. Aqui se mata demais, mas aqui também se vivem grandes paixões.

Viver em Recife não é fácil, o trânsito corrói, o medo vai tirando um pedaço da gente a cada dia. O abismo social é como uma gastrite crônica vitalícia, machuca lá nas entranhas por mais que não percebamos. Ele nos faz sangrar com a paciência que só o Diabo possui.

Mas quem disse que paixão é algo tranquilo? Paixão machuca e muito, causa úlceras, e venhamos e convenhamos, por isso que é bom. Não me venha com o riso da Monalisa, eu quero é gargalhar e depois quebrar meus joelhos num frevo desajustado que termina em paralelepípedos. Recife causa amor e ódio.

O amor em tempos de graxa

Prazer, Hellcife

E quando pensamos que Recife já esteve no mapa mundial dos fluxos comerciais, que por aqui passou o mundo todo em forma de mercadorias, tivemos os holandeses e portugueses se esbaldando em sangue por nossa causa, nos perguntamos que Recife é este que vivemos agora. É o começo do fim, ou é o fim?

Em alguns momentos, a depressão bem humorada impregnada no apelido “Hellcife” perde toda a graça quando parece que tem mesmo gente que nos troca por Miami.

Sim, Recife tem alma. Sim, Recife tem personalidade. E sua alma é a mesma daquelas moças e moços que carregam alguns penduricalhos de couro e mandingas do mar. Cabelos longos sem muitos cortes. Fala fácil disfarçada de cálida, mas que no fundo não consegue esconder sua personalidade forte e certeira, como a escrita de João Cabral de Melo Neto.

Mas a pior notícia desse texto chega agora, não precisa ter ido muito longe para saber que poucas cidades têm alma, poucas cidades têm nexo e narrativa. E se você tem ao menos um amigo de verdade, sabe que seu vínculo com ele, e também com a cidade onde mora, não se constrói sem esses componentes. Não se constrói com base em frivolidades e em perguntas como ” how is the weather today?”.

Como diz Vinicius de Moraes, “nunca vi amizade nascer em leiteria”. Amizade é feita de angústias e superações compartilhadas, é feita de histórias em comum.

Além disso, vale dizer que desde que o mundo é mundo, este é o único lugar do planeta no qual você não é imigrante. Então, minha amiga e meu amigo, é bom você começar a pensar como será a reciprocidade da amizade do seu filho com esta cidade. Porque, lamento dizer, mas você já foi até as vias de fato com Recife e este lugar não só deixa rastros de paixão, como te engravida mesmo.

 

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral.

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comment 11 comentários

  1. Recife, sua Infeliz. Triste de quem acredita, nas mais belas histórias daqueles tempos de glória. Recife tu que se diz grande, a maior do Nordeste, esquecestes de crescer na mente dos teus habitantes. Se os judeus não houvessem partido ou os holandeses ficassem mais um pouco, talvez habitasse no meu peito menos desgosto. Se te observo as pontes, os teus me levam no arrastão, me apontam as armas querendo alguns tostão. Tuas crianças vendem chicletes, o ministério público não olha para os pivetes Tuas leis são severas aos que querem trabalhar Mas que não andam na linha, são os que tem a ganhar Recife desgraçada, acabasse com tudo. Teus canais mal cheirosos, me fazem vomitar, a lama escura e molhada Não sei se gosto mais da pipoca doce ou salgada Ah Recife, terra que senti saudade não enxergava a tua grande maldade Mas não és careta, é por sinal bem drogada. Falando em drogada, acabei de lembrar do playboy que depois da balada avançou um sinal assassinando uma família tão amada. Recife Desgraçada, Minha irmã tem medo dos teus ônibus medo de ser estuprada. Mas há de chegar fevereiro, eu vou cantar todos os frevos Beber cerveja quente com gosto de mijo e achar isso o máximo do descolex Se eu for embora, vou levar uma bandeira de Pernambuco falar com orgulho das terras dos nossos coroneis Arraes.
  2. A pouco tempo moro em Recife, e tinha meio que uma aversão a cidade... Mas a cidade nesses quase 3 anos vem mudando o meu conceito. E que até já fiquei raízes aqui, minha filha nasceu nessa cidade. Apesar dos contrastes tenho aprendido a gostar cada vez mais da cidade. Excelente crônica Diego!! Abraços

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