O amor em tempos de graxa

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Foto: Pinterest

Avaliar, refletir e também pensar asneiras era algo bastante comum para Tomas. Principalmente quando o movimento era fraco na borracharia do seu pai, onde ele aprendera o ofício da vida desde muito novo.

Ali ele entendeu muito bem o significado da palavra hostilidade. Imerso em graxa e força bruta, ele compreendeu que o ritmo da sobrevivência é sempre a troca. Você sempre dá algo e recebe algo de volta e assim o mundo gira. Nem sempre numa transação justa, é bem verdade, mas onde há troca, há vida.

Nenhum ser vivo, seja o rapaz de juba avantajada que senta-se no trono da cadeia alimentar, seja uma bactéria, sobrevive sem escambo.

A vida de Tomas foi feita de escambo e sobrevivência, possivelmente uma vida mais árdua do que a de muitas outras pessoas, mas vivida estruturalmente sob esses dois componentes que regem qualquer existência. E não se engane, eles geram coisas lindas e mágicas, como o amor.

Troca

O amor também é uma questão de escambo e sobrevivência, de troca e segurança, de alimento e perpetuação da espécie. Por exemplo, ali naquela borracharia de Setúbal, Tomas conheceu Aline, sua esposa.

No quarto de cima, onde ele mora sem pagar aluguel porque seu pai deixara o ofício e o estabelecimento como herança, eles se amaram torrencialmente, numa mistura de suor e necessidade, num encontro de anseios que acabara por explodir em forma de vida. Nasceu Sheley, primeira filha do casal. A troca alcançou seu principal objetivo, resultou vida.

Não pense que por esse texto enfatizar o pragmatismo próprio de uma borracharia, um lugar onde nunca iremos a não ser que tenhamos uma emergência extrema, e extrapolar para outros aspectos da vida as premissas que a fazem funcionar diariamente, não falará de amor com a delicadeza que a palavra pede.

Pois ali, em poucos minutos, vi Tomas numa fala muito fluida e afável falar do seu pai, do seu ofício e de seus sonhos. Fui atendido com gentileza e esmero. E enxerguei nele a segurança e a consciência que só um homem muito amado na infância possui.

Se você espera um final feliz, te antecipo de agora, Tomas é um cara feliz. É natural que ele esteja um pouco cansado dessa vida, principalmente porque o corpo dele é exigido demais e sabe que esse desgaste tem limite. Então me disse que gostaria de ter estudado mais para poder exercer outra profissão, mas que neste momento ele só sabia fazer isso pra sobreviver. Falamos da possibilidade de cursos fora do horário de trabalho e coisas afins.

Enfim, Tomas segue sua jornada como todos nós. Trocando pneus em troca de R$ 20  e dando aula sobre força e sabedoria de graça, sem saber que seu papel no mundo é muito mais relevante do que imagina.

Graças a ele consegui chegar a tempo de ver a apresentação do meu primogênito na escola, foi possível estar lá quando meu filho me procurou na plateia e estabeleceu o contato visual que constrói a confiança de toda uma vida. E graças a Tomas também foi possível refletir que a vida é, na verdade, uma questão de dar e receber afetos que criam significados e sustentam a nossa sobrevivência.

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral.



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