Por onde anda Tarcísio Pereira, da icônica Livro 7?

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(Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Durante três décadas, uma livraria se notabilizou como o ponto de encontro da gente pensante no Recife, marcando a história cultural – e política – da cidade. A Livro 7, que funcionava no bairro da Boa Vista, tinha lugar cativo entre artistas e intelectuais, e seu proprietário – o livreiro Tarcísio Pereira – era tão querido quanto.

Em 2000, a Livro 7 encerrou suas atividades, e Tarcísio tratou de seguir a vida. Engana-se quem pensa que ele saiu de cena. Por isso, vamos responder a pergunta: Por onde anda Tarcísio?

O PorAqui foi recebido pelo próprio, no bairro da Madalena, Zona Oeste do Recife, onde fica o escritório da Tarcísio Pereira Editor, sua editora de livros, criada em 2013 e responsável, até agora, pela publicação de 300 títulos.

O papo, óbvio, não poderia ser outro: a Livro 7, que foi fruto de uma mistura de “vocação e destino” na vida desse natalense que, aos 15 anos, chegou ao Recife e, com 16, deu os seus primeiros passos profissionais ligados ao mundo da leitura: na Livraria Imperatriz, onde entrou como aprendiz de vendedor e saiu como encarregado (gerente) do setor de livraria.

(Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Dessa época, guarda o carinho especial pelo chefe, o livreiro Jacob Berenstein, dono da Imperatriz. “Ele ensinava não só a vender livros, mas a amar os livros”, diz Tarcísio. “Eu não imaginava que seria livreiro, que teria uma livraria, mas já sabia que minha vida seria envolvida com o livro, pelo prazer que eu tinha com aquilo”.

E foi: em 27 de julho de 1970, Tarcísio abriu as portas da Livro 7. Começava, então, um período feliz, intenso, agitado e produtivo em sua vida.

Livro 7

Tudo começou numa salinha de 20 m², na Rua Sete de Setembro, no bairro da Boa Vista. Algum tempo depois, Tarcísio já estava de mudança – na mesma rua – para um casarão enorme, onde a Livro 7 se consolidou em definitivo.

No espaço, montou o que a Revista Manchete, certa vez, chamou de “o primeiro shopping cultural do Brasil”: livraria, loja de discos, loja de artesanato, cervejaria (com 150 mesas), teatro de bolso e loja com plantas de interior. Tudo isso coabitava – distribuído em várias salas – o complexo cultural que se tornou a Livro 7.

(Foto: arquivo pessoal)

“Era uma revolução permanente todos os dias”, diz Tarcísio sobre o espaço, que virou point da galera antenada em cultura. De uma simples livraria – que seria o seu propósito inicial –, o espaço da Livro 7 passou a congregar de um tudo e movimentar a vida cultural da cidade.

Lá aconteciam exposições, performances, peças de teatro (cursos de teatro, na sequência), recitais, torneio de xadrez, exibições de Super 8… Tudo sob a tutela de Tarcísio. E também shows. Passaram por lá Geraldo Azevedo, Alceu Valença, Robertinho do Recife, Cátia de França, entre outros.

(Foto: arquivo pessoal)

Até mesmo bloco de Carnaval foi criado na Livro 7: a Troça Carnavalesca Independente Nóis Sofre… mas Nóis Goza, que completou, em 2018, 42 anos de criação.

“Era uma época em que as pessoas se reuniam, principalmente nos finais das tardes de sexta, para esperar chegar a nova edição do Pasquim, por exemplo, e lá mesmo ficavam, debatendo sobre política e também sobre arte e cultura de uma forma geral”, lembra Tarcísio.

Junto a tudo isso, Tarcísio também conviveu com o cerco constante da ditadura sobre a Livro 7. De livros tidos como “subversivos” pelos militares até mesmo um simples cartão de Natal, tudo se tornava alvo do monitoramento do regime, o que levava ao recolhimento de livros e Tarcísio a prestar diversos depoimentos à polícia, na época.

Prestígio

Os lançamentos que aconteciam na Livro 7 foram um capítulo à parte. Estiveram lá nomes como Osman Lins, Ariano Suassuna, Gilberto Freyre, Ferreira Gullar, Dias Gomes e até mesmo o norte-americno Sidney Sheldon, em uma das noites de autógrafos antológicas da livraria. O autor vendeu, somente naquela noite, 940 livros e autografou mais umas várias dezenas de outros.

O escritor Sidney Sheldon (de branco) em noite de autógrafos , na Livro 7 (Foto: arquivo pessoal)

Esse prestígio ultrapassou fronteiras, levando Tarcísio a receber, pela Academia Brasileira de Letras, o Mérito Cultural pela Divulgação da Literatura, no começos dos anos 1990; a participar, com um stand da livraria, na Feira do Livro de Frankfurt; a Livro 7 passar a figurar no Guinness Book – o Livro dos Recordes – como a maior livraria do Brasil, em número de títulos (60 mil) e extensão de prateleiras.

(Foto: Leonardo Vila Nova/PorAqui)

Mas, afinal… por onde anda Tarcísio?

Com o fim da Livro 7 (entre 1999 e 2000), Tarcísio não parou. Logo após o fechamento das portas, ele passou um ano e meio prestando consultoria para a abertura e manutenção de livrarias, aqui no Recife (Livraria Arraial e Livraria Nobel, por exemplo), em João Pessoa (PB) e em Aracaju (SE).

Em 2002, junto com o amigo Belarmino Alcoforado, fundou a Livro Rápido, que seguiu até 2013, quando criou a Tarcísio Pereira Editor.

Além disso, ele também é presidente do Conselho Editorial da Companhia Editora de Pernambuco – CEPE e apresenta o web programa Tarcísio Pereira Convoca, disponível em seu canal no Youtube, em que conversa com nomes ligados à literatura e às artes – já passaram por lá Raimundo Carreiro, Lailson de Holanda e José Paulo Cavalcanti Filho.

Atualmente, também começou a escrever um livro com 50 “causos” – fatos curiosos, pitorescos – que aconteceram na Livro 7. Infelizmente, ele não pode adiantar nada para o PorAqui.

“E, fora isso tudinho, eu ainda sou carnavalesco e gosto, de vez em quando, de bater um tantan”.



comment 18 comentários

  1. Nossa... Que incrível tantas notícias maravilhosas do querido Tarcísio. Recife precisa ter a Livro 7 de volta... Seja na Sete de Setembro, na Madalena ou até, quem sabe, no Recife Antigo. Eu, que sou leitora, sinto muita falta de um espaço onde possamos sentar sozinhos ou acompanhados, ler um bom livro, comprar melhores, tomar um café ou até uma cerveja, em um ambiente tão cultural!!! Ansiosa pelo lançamento do livro!
  2. Nossa... deu saudade... Meu texto da semana passada trouxe uma passagem sobre a Livro 7, Tarcísio Pereira, e a sua importância para os estudantes e intelectuais da minha época. Saudade dos meus livros da Coleção Primeiros Passos, Coleção Vaga-lume (meu primeiro livro da coleção foi O Rapto do Garoto de Ouro, de Marcos Rey... aliás, li todos os deste autor nesta coleção), Para Gostar de Ler... Saudades, Tarcísio...
  3. Saudades dessa livraria que fez parte de minha adolescência, fiquei várias vezes perdida em meio a esse paraíso, lendo, viajando.....
  4. Saudades dos tempos bons da esplendorosa e mágica Livro 7, do acalanto cultural, onde uma orelhinha de livro nos revigorava emoções literárias transcedentes.
  5. Não só estava nessa livraria na noite de autógrafos de Sidney Sheldon, como tive o prazer de ter como patrão a figura do lendário Tarcísio Pereira. Quanta saudade! Essa leitura me fez reviver minha história de vida. A minha mãe, que também trabalhou, assim como eu, somos partes vivas dessa história de amor. Ajudamos a construir esse universo mágico que era a livro sete. Parabéns, Tarcísio Pereira, por manter vivo esse espírito de amor pelo mundo dos livros. Saudades, apenas saudades, é o que sinto nesse momento. Abraço forte e muitos anos de vida com essa dedicação que só a tem quem é verdadeiramente apaixonado pelo que faz.
    1. Eu estava na Livro 7 nos anos 90 quando de repente entra INRI CRISTO pra dar uma palestra. De repente alguém acende um cigarro e Inri se arreta e diz que não fica em ambiente onde tenha fumantes e vai embora. Eu acho os três principais locais daquela época, o beco da fome, a livro 7 e o bar O Calabouço. Bons anos 90...
  6. Bons tempos,saudades!!! Recorda minha adolescência. Ficava horas lá e não me dava conta do tempo.Era parada obrigatória. Gostaria de reviver!!!!
  7. Eita que saudade viu? Passava horas lendo os livros, sentada nos bancos da pracinha dentro da livraria...rsrsrs...não podia comprar todos os livros di curso de História, era o jeito apelar, pois lá tinha tudo que a gente precisava.
  8. Faltou na reportagem o motivo pelo qual a livraria fechou : o calote de boa parte de seus clientes. Para facilitar a compra de livros por parte da população de baixa renda e dos estudantes, o proprietário Tarcísio Pereira criou um sistema de crediário próprio. A pessoa poderia comprar os livros pagando em várias parcelas mensais, pagando as mesmas na própria livraria. Acontece que muitos só pagavam a 1ª prestação e com isso veio o inevitável prejuízo financeiro.
  9. Gostaria muito que a Livro 7 retomasse suas atividades, não só em vender livros mais o prazer de ler num ambiente rico em cultura Brasileira e internacional. O isentivo que o público tinha em respeitar,conservar a pratica de ler era maravilhoso mesmo com toda tecnologia de hoje nas mãos dos jovens e adultos mas nada se compara em interagir com as pessoas nos lançamentos das pecas de teatros,palestras de vários assuntos e em fim o livro tem esse a tratativo de reunir pessoas em ter conhecimento.

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