Magiluth problematiza bolhas sociais em “Dinamarca”

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Bruna Valença

Em mais um salto de ousadia em sua trajetória, o grupo Magiluth, estreia, nesta quarta (2), Dinamarca, sua nova peça teatral. O espetáculo cumpre curta temporada no Teatro Marco Camarotti, no SESC Santo Amaro, Centro do Recife, nos dias 2, 3, 5 e 6, às 20h. Os ingressos custam R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia).

Dinamarca trouxe um desafio e tanto para o grupo: recriar o clássico da dramaturgia mundial Hamlet, de William Shakespeare, escrito entre 1599 e 1601. No entanto, como já é de costume no jogo cênico do Magiluth, a montagem ganhou linguagem e modo de fazer teatro típicos do grupo.

Com dramaturgia de Giordano Castro e direção de Pedro Wagner, estão em cena, além do próprio Giordano, os atores Erivaldo Oliveira, Lucas Torres, Bruno Parmera e Mário Sérgio Cabral.

(Foto: Bruna Valença)

Baseado no texto de mais de 500 anos, Dinamarca trouxe para ares contemporâneos uma festa entre amigos da nobreza dinamarquesa, num reino que acabara de viver um golpe de estado. É aí que reside a atualidade do texto de Shakespeare.

Reunidos à mesa, entre bebidas, sorrisos e felicidades mecanizadas, os convidados da festa estão totalmente alheios ao caos político, social e humano que vive a sociedade do lado de fora.

Essa letargia diante dos acontecimentos é o alvo principal da crítica do Magiluth às chamadas bolhas sociais.

“O mundo está em frangalhos, enquanto eles estão ali, encastelados, comemorando suas felicidades artificiais, como se nada estivesse acontecendo”, ressalta Pedro Wagner.

Hygge

Há uma “brincadeira” conceitual no que o Magiluth mostra neste novo trabalho, que está ancorado numa palavra: hygge. Uma “palavra-conceito” que só existe na Dinamarca (assim como o conceito de “saudade” na língua portuguesa), para definir uma espécie de estado de bem estar, baseado nas pequenas felicidades.

“A Dinamarca tem os melhores indicadores sociais do mundo, é um país com toda uma base que pode proporcionar às pessoas esses momentos hygge. Mas imagine isso num país como o Brasil, por exemplo”, destaca Pedro Wagner.

(Foto: Bruna Valença|)

“Nós tentamos instaurar esse momento hygge nessa festa. É uma tiração de onda com um refinamento, esse polimento num lugar que não cabe”, comenta Giordano Castro.

Esse padrão de felicidade artificial que se enclausura em bolhas sociais e cria, de certa forma, uma estado de alienação, é o ponto crucial da crítica do Magiluth. A disparidade e o modelo de consumo, cristalizados nas bolhas, em geral, tendem a se espelhar em – e reproduzir – modelos inadequados à nossa realidade.

“Por mais iPhones que a gente tenha na mão, essas diferenças são muito gritantes. A gente consome as coisas de uma forma, mas a realidade é outra. Ainda somos América Latina e temos as mazelas de uma América Latina”, destaca Giordano.

Continuação

Dinamarca surge como uma continuação de O ano em que sonhamos perigosamente, espetáculo que foi um drástico desvio de percurso no que o Magiluth vinha fazendo até então.

Com uma linguagem nada linear, fragmentada e, por vezes, estranha ao público, o aspecto político foi a grande tônica de “O ano… “. Um grupo de atores, no olho do furacão de importantes mudanças políticas e sociais no lugar onde viviam, agindo ativamente.

Dinamarca vem sendo construída desde 2016, como natural desdobramento das questões políticas que o Magiluth vinha apontando mais fortemente. “Dinamarca só existe hoje porque veio ‘O ano… ‘ Ele foi meio que um detonador de um possível caminho que iríamos seguir”, conta Pedro Wagner.

(Foto: Bruna Valença)

“Continua sendo uma investigação sobre os elementos democráticos, a distorção da democracia”, continua Pedro. “Há algumas cenas que estavam em ‘O ano… ‘ e que voltam em Dinamarca.

Só que, desta vez, o foco é outro. Sai o engajamento orgânico e o embate frontal que se falava na peça anterior, e entra a crítica a essa letargia das bolhas sociais. Mas a acidez continua ali, firme e forte.

Parcerias

Para a realização de Dinamarca, o Magiluth contou com algumas parcerias: Giovana Soar e Nadja Naira, da Companhia Brasileira de Teatro, atuaram como provocadoras do processo de construção, colaborando nas questões de encenação e dramaturgia.

A direção de arte ficou a cargo do desginer Guilherme Luigi. E o desenho de som foi criado foi criado pelo duo Pachka, formado pelos músicos Miguel Mendes e Tomás Brandão, que executarão os sons ao vivo.

SERVIÇO
Dinamarca, com o grupo Magiluth
Quarta (2), quinta (3), sábado (5) e domingo (6), às 20h
Teatro Marco Camarotti (SESC Santo Amaro) | Rua 13 de Maio, 455 – Santo Amaro
R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)
Classificação: 16 anos

 



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