O pão nosso de cada dia

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Foto: Pão da Casa/Facebook

Tive oportunidade de morar em Curitiba durante quatro anos e nesse período conheci a beleza e acolhimento oriundo do pão artesanal.

A partir de então, descobri que eu não conhecia o que era pão de verdade.

Na época, havia uma padaria de fermentação longa próxima da minha casa comandada por um uruguaio e sua esposa, uma simpatia de casal.

Era comum passar por lá após o expediente para comprar pão de azeitona, pão de queijo com cebola e algum tipo mais rústico e integral.

Aprendi que é possível fazer refeição apenas de pão, vinho e azeite. Muitas vezes esse se tornou meu jantar diário.

E não pense que estou falando de algo com preço astronômico, era mais caro que o convencional, mas perfeitamente acessível.

Sobre o tempo e seus sins

Rene

O pão artesanal ainda me reservava grata surpresa. Conheci Rene, um vizinho que já havia criado galinhas no apartamento para que seu lixo orgânico tivesse destino. Transformou sua vida em 100% sustentável.

Rene havia feito seu doutorado na Inglaterra e estudado os negócios criados para serem essencialmente pequenos, caso contrário perderiam tudo, inclusive o apelo comercial. Lá em Curitiba ele ia dar aula na universidade de bicicleta, criou uma horta comunitária próxima de onde morávamos e estava testando um modelo de pão por assinatura.

Eu pagava poucos reais e toda sexta-feira à noite o melhor pão de levedura de Champanhe estava em minha porta. Como sinto falta disso. Nunca vivi tamanho luxo. Meu jantar diferenciado estava sempre ali no dia que mais precisava dele.

Rene me ensinou e ainda me ensina muito provavelmente sem saber disso. Ele se mudou com toda a sua família para a Colônia Witmarsum, resolveu viver mais conectado com a terra.

Começou a desenvolver o escambo, trocava seu pão por algumas horas de uso da máquina de cortar grama do vizinho ou por lenhas de um outro vizinho. Em suma, resgatou o sentido mais primário, funcional e afetivo de comunidade.

Já vi matéria sobre ele e seu estilo de vida no G1 e o canal Pão da Casa, que ele criou no YouTube para ensinar a fazer pão artesanal tem centenas de milhares de acessos. Vale a pena ir lá e conhecer um pouco dessa tradição secular que deixamos em algum lugar do passado: o pão de longa fermentação.

Recife felizmente passou a contar recentemente com alguns estabelecimentos que estão ofertando esse tipo de pão. Conheço o Galo Padeiro e mais recentemente a Além do Pão em Setúbal.

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Espero que surjam muitos outros, mas que não nos tornemos uma Londres em que os bairros pobres e ricos são facilmente identificados pela cor do pão. Nos bairros ricos não se tem pão branco, ou seja, algo na linha do nosso francesinho. Até porque nada substituirá uma fornada de pão francês recém saída do forno acompanhada de manteiga.

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral. Facebook: Diego Garcez | Instagram: @garcezdiego

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