Era ‘assustado’ que chamava, era? Como se fazia festa surpresa nos anos 80

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Arte: Thiago Ramos/PorAqui

♪♫ Foi numa festa gelo e cuba libre…

Depois de anunciado o fechamento da boate Downtown – que, logo em seguida, lançou campanha de financiamento colaborativo para reabrir -, fiz uma viagem ao passado e recordei os bons tempos “boateiros” da night recifense. Eram bares e boates (estas mais raras à época) pra mais de metro… A Rua Visconde de Albuquerque, entre a Madalena e a Torre, que o diga: era só apontar o dedo e escolher.

Naquele tempo, havia bares e restaurantes com música ao vivo, charmosos, aconchegantes, perfeitos para os encontros românticos e para quem quisesse mexer o esqueleto.

Do lado esquerdo, sentido Carrefour, que ainda nem sonhava aportar por estas bandas, você tinha o Restaurante Flor do Jucá, o bar Boca da Noite, o Chaplim; do lado esquerdo, você contava com o Túnel do Tempo, Anos 60, e, se desse uma voltinha na Beira Rio, daria de cara com o No Meio do Mundo.

Ah, se agradou, não? Bastava atravessar a ponta da Torre (ou da Capunga, dependendo do ponto onde se encontrasse o sujeito) e mirar no Meio do Mundo, Papa Estrela, Aquarius, Sanatório Geral, Over Point (da galera abastada), Depois do Escuro, Bebeketo… E demais bares, restaurantes e boates que animaram a noite recifense entre as décadas de 1980 e 1990, e tantos outros que vieram na década seguinte.

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Assustado

Mas alguém se lembra de como era preparar uma festinha surpresa para aquele(a) amigo(a) aniversariante antigamente? E as festas de 15 anos? Na época da minha adolescência, glamour mesmo era fazer “parte da mesa”. Ou seja, ser uma das 14 meninas que puxariam as fitas do bolo na festa da amiga em seus 15 anos… E torcer para tirar a aliança, o que significaria casamento.

Naquele tempo, a luta feminista não tinha tanta evidência e o medo de não casar imperava entre as adolescentes. Vou logo dizendo que nunca tirei a aliança, mas não tive problemas por isso. Certa vez, até tirei o dedal, que tinha como significado o “ficar para titia”. Sou tia, mas não fiquei no mundo só para isso.

E quanto às festas de aniversário surpresa? Eram os chamados “assustados” ou Hi Fi, herança dos americanos. Não, a intenção não era dar susto no aniversariante, claro, mas deixá-lo boquiaberto com a comemoração preparada. Como nós tínhamos parcos recursos, nossas festas eram carregadas da velha e boa gambiarra… Querem saber? Espiem só!

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Dos ‘defeitos’ especiais…

Nada de gelo seco, nada de luz estroboscópica. Comprávamos lâmpadas coloridas,  enrolávamos em papel celofane e revezávamos com alguém que, de vez em quando, ficava mexendo no interruptor, acendendo e apagando, para dar o efeito de pisca-pisca

Dos comes…

Caco Antibes odiaria, mas nada como os velhos e bons belisquetes dos assustados: canudinhos, empadinhas, coxinhas, safadezas (dou duvida quem se lembrar do que se trata), salada russa (maionese com atum… ops, de sardinha. Só não me perguntem o porquê de ‘russa’), salgadinho de queijo, de cebola, pastéis de carne, queijo e camarão (para aquele amigo amostrado, que gostava de aparecer).

Não poderia faltar também o bolo confeitado e os singelos docinhos, do tipo brigadeiro, beijinho (de coco, nada de jujuba pra enganar!), queijadinha (amo), bem-casado e cajuzinho.

Dos bebes…

Para os que já podiam consumir bebida alcoólica, não podia faltar o velho Rum Montilla com Coca-Cola – a cuba libre sagrada de todos nós. Quem muito a consumiu hoje não chega nem perto – o fígado geme só de se lembrar.

Outra aposta também eram os ponches, feitos de vários tipos de frutas, ou a velha e boa sangria. Esta de vez em quando passeia lá em casa. Famosos há época eram também o San Remy e o Martini, para as meninas que queriam mostrar certo charme – ou ‘se fazerem de doces’, como diriam os meninos. Os menores de idade se continham com sucos (ou K-suco, para os de caraminguás contados) e refrigerantes… Eita, salivei só de pensar numa Fratelli Vita bem gelada…

Dos convidados…

“Um convidado leva cem”, se dizia naquele tempo. Não havia convite impresso. Bastava dizer: “vai ter um assustado na casa de fulano. Bora?” E lá ia a turma toda, pouco importando se o dono da festa era conhecido ou não. Mas ninguém se esquecia de levar a velha e necessária ‘lembrancinha’. Nada como ganhar um vidro de Contouré (aliás, coleções de vidros, até de um litro); caixas de sabonetes Alma de Flores, lavanda, de preferência; os ainda resistentes Charisma e Toque de Amor, da Avon; aquele estojo com escova de cabelo + pente, da Condor; um compacto duplo do(a) cantor(a) do(a) aniversariante… Pouco importava o sexo. Quase tudo era unissex…

Das vestimentas…

Dependia do que estava na moda: blusas ‘Te contei’ (ombros caídos), vestidos e saias ‘mate o velho’ ou ‘balonê’, tamancos francesinha, Anabelas com meias de lurex… Para os rapazes, uma camisa de voil ou de bouclê e a sempre companheira calça jeans.

E o que se ouvia/dançava?

O mote era não ficar parado, e para não correr o risco de não haver opções musicais na casa anfitriã, os convidados sempre levavam aqueles LPs com os sucessos do momento, devidamente identificados na capa e no rótulo do vinil, para que não se perdessem entre os demais.

Na empolgação, nada como dançar ao som do Village People (YMCA), Earth, Wind and Fire (Fantasy), Jackson Five (Don’t stop to get enough)… Mas, para arrasar e dar show na pista, não poderia falar Patrick Hernandez, com o seu Born to be alive, e para fechar com chave de ouro, aquela que até hoje reina absoluta, Gloria Gainors e o eterno I will survive…

Na hora do rosto a rosto, do cheek to cheek, íamos dos nacionais aos internacionais, de Roupa Nova e The Fevers a Carly Simon, Air Supply, Chicago, Queen, Bonnie Tyler e o inglês macarrônico dos boyzinhos querendo paquerar as gatinhas, cantando Comming around again, como se fosse o ‘camarão de alguém’…

Era bem assim…

Os recursos eram poucos, mas não se passava um aniversário em brancas nuvens. Sempre se podia fazer aquela surpresa, organizar aquele assustado para os amigos, afinal, naquele tempo o mote era: cada um leva um pratinho e uma bebida. Ou, como pilheriavam: homem – bebida, mulher – comida. E assim se fazia aquela festa, até cair o(a) último(a) convidado(a), até o raiar do sol, já que não havia preocupação com a segurança. Medo, mesmo, a gente só tinha de alma… e de não conseguir aquele par para dançar.

 

Por Ediane Souza

Em “Divagando”, Ediane Souza vaga por suas memórias e por memórias coletivas do recifense, do pernambucano. 

 

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comment 11 comentários

    1. Eu sempre acho que podemos reviver na prática certos momentos saudosos. Bora fazer um assustado? kkk
  1. "Safadeza" era um mamão espetado com palitinhos com pedacinhos de queijo, salsicha e uma azeitona. Podia até, variar. Mas , basicamente , era assim. A sangria: cheia de pedaços de maçã.
    1. Ao final ano, 2017, para relembrar os petiscos de minha saudosa mãe, fiz as tais 'safadezas'. Bom demais!
  2. Achei lindo viajei no tempo e no espaço lembrei de minha calça cocota e minhas meias soquetes amei parabéns bons tempos que não voltam mais.obgda.
  3. Chamavámos O Meio do Mundo carinhosamente de “ O Morredor”, pois sempre acabávamos a noite por lá na década de 90! Que temo bom!

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