Com que roupa eu vou? As histórias por trás da amarelinha da Seleção Brasileira

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Vitoriosa, a camisa amarela vem perdendo o glamour com o tempo. Foto: Luiz Paulo Machado

Uma simbologia golpeada e corrompida. É mais ou menos assim que alguns brasileiros têm manifestado o sentimento atual à respeito da camisa da Seleção Brasileira de Futebol. A imaculada amarelinha de tantas euforias e que tão bem representou a identidade afro-indígena do futebol brasileiro de Leônidas da Silva, Mané Garrincha, Marta e Flávio Caça-Rato, sucumbiu ao 7 x 1 da política caravelas.

É muito compreensível que beirando o início de mais uma Copa do Mundo nossos pares não vejam muito sentido em torcer por uma equipe que vai entrar em campo trajando o mesmo uniforme que midiaticamente vem simbolizando um momento de um país que, na boleia dos caminhões, vai se precarizando de forma acelerada.

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Sem contar que a “camisa da CBF” também transpira escândalos envolvendo a “entidade máxima do futebol brasileiro“, que tem como um dos seus atuais diretores um jovem rapaz que ainda não respondeu judicialmente por ser dono de um controverso e recheado helicóptero que sorrateiramente pairava nos céus à serviço de uma empresa agropecuária.

A (des) construção simbólica recente do uniforme da Seleção Brasileira é um acinte à memória afetiva e o orgulho de brasileiros e brasileiras que, como um dia já escreveu Nelson Rodrigues, até 1958, ano do primeiro título mundial, “não ganhava nem (competição) de cuspe à distância”. No texto Futebol é paixão, o mesmo afirma que antes do futebol, ninguém acreditava em nosso país, nem o próprio acreditava em si mesmo.

Garrincha é a representação da alegria do povo brasileiro.

A crise de representatividade assola também o futebol e tem sobrado para a amarelinha a pecha da mediocridade e da cegueira coletiva que arrebatou a mesma nação que em poucos dias entra em campo em busca do hexacampeonato. A Copa do Mundo, no caso, servindo praticamente como uma partida preliminar antes do esperado processo de eleições diretas que muitos ainda acreditam que vai amarelar.

O Brasil de camisa vermelha

O Brasil jogou com o uniforme do Independiente da Argentina na década de 1930. Foto: Blog Futebol Magazine

Nem sempre o Brasil atuou com o hoje controverso uniforme amarelo. Quando tudo ainda era mato e o país engatinhava na prática do esporte, o time jogou por quase 50 anos de camisa branca com frisos azuis nas mangas. A partida inaugural da Seleção Brasileira foi em 1914, no Estádio das Laranjeiras (Rio de Janeiro), contra o Exeter City, da Inglaterra, e ganhamos o jogo por 2 x 0.

Já em 1916, foi lançado o uniforme reserva (ou segundo uniforme) da Seleção Brasileira. A camisa tinha listras verticais em verde e amarelo e um calção branco. Pouco tempo depois foi banido o uso das cores da bandeira nacional e o time continuou a atuar oficialmente com o padrão de cor branca, como nos campeonatos Sul-americanos de 1917 e 1919 e nas Copas do Mundo de 1930, 1934, 1938 e 1950.

A camisa branca no Sul-americano de 1917.
O segundo uniforme com as listras verticais em verde e amarelo.

A cor vermelha também serviu para dar o tom do uniforme da Seleção Brasileira em dois momentos históricos. O primeiro, ainda em 1917, e pela primeira vez usando o escudo da CBD – Confederação Brasileira de Desportos, a camisa encarnada foi o uniforme reserva no Sul-americano daquele ano, pois os selecionados da Argentina e do Chile também usavam a camisa branca.

A outra ocasião foi no Sul-americano de 1936 quando o alvirrubro Independiente, clube da cidade de Buenos Aires, na Argentina, teve que emprestar a camisa vermelha para o Brasil no jogo contra o Peru, já que as duas seleções tinham a camisa branca como uniforme principal.

O nascimento da camisa canarinho

Os esboços que originaram a camisa atual da Seleção Brasileira.

Reza a lenda que após o fracasso na Copa de 1950, quando a Seleção Brasileira perdeu a final para o Uruguai no famoso Maracanazo, não só o goleiro Barbosa levou a culpa pela eterna derrota do futebol brasileiro. O uniforme branco utilizado nas últimas quatro Copas do Mundo também virou bode expiatório.

Assim, para definir quais seriam as novas cores das vestes do nosso selecionado, a CBD e o jornal carioca Correio da Manhã promoveram um concurso para a escolha da nova roupa a ser usada pela Seleção Brasileira. A competição aconteceu em 1953, na véspera das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1954.

O goleiro Barbosa não foi o único bode expiatório do fracasso na Copa do Mundo de 1950.

Foram mais de 200 propostas enviadas à redação do jornal e o trabalho vencedor foi o de um jovem gaúcho de apenas 18 anos, chamado Aldyr Garcia Schlee, que desenhou o uniforme se baseando nas cores da bandeira brasileira.

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Assim, a camisa amarela com detalhes verdes na gola e mangas, o calção azul com listras brancas nos lados e os meiões brancos com frisos verdes e amarelos são a base do uniforme brasileiro até hoje e – para quem é de mandinga – deram a maior sorte.

Aldyr, o criador da atualmente contestada camisa Canarinho. Foto: Gilberto Perin/Divulgação

Premiado, Aldyr ganhou o equivalente a 20 mil reais e também um estágio no Correio da Manhã, onde lá teve a oportunidade de conhecer importantes nomes do jornalismo da época, como por exemplo o já citado Nelson Rodrigues e Millôr Fernandes.



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