Colômbia x Pernambuco: como o exemplo de Medellín pode ser útil aqui

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Foto: Sidney Nicéas/Colaboração

O homem maltrapilho sentado na cadeira confortável. Manuseava o jornal do dia e apoiava os braços na longa mesa. O ambiente impecável. A favela (ou comuna) era contraste ante o prédio, diria, luxuoso. Um parque-biblioteca na periferia de Bogotá dando exemplo para o resto da América.

Foi lá que fiz um painel, vinculado à Feira do Livro de Bogotá, para os frequentadores, cerca de 50 pessoas da comunidade: artistas, leitores, estudantes, reflexo dos quase 30 anos do processo de Cultura Cidadã lá implantado. Ao meu lado o escritor colombiano Carlos Sierra, atualmente radicado em Pernambuco, mas que por alguns longos anos participou diretamente do projeto em Medellín, sua terra natal.

Essa experiência marcante me trouxe duas reflexões importantes. A primeira, a lida com a coisa pública. Aqui no Brasil, o público é de ninguém. Usuários não compreendem a noção coletiva e as obras governamentais resultam em equipamentos pobres para os mais pobres – com as classes mais abastadas, contudo, a história é outra, subvertendo a aplicação dos impostos.

Educação e cultura são irmãs siamesas. E lá na Colômbia isso é real e vem ajudando a melhorar a realidade social do país.

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Os colombianos vêm investindo na chamada Cultura Cidadã, que busca modificar a cultura das pessoas na convivência coletiva. Isso tem transformado Bogotá e, principalmente, Medellín, em modelos interessantes de como governos podem (e devem!) atuar em conjunto com as pessoas – que se tornam, de fato, agentes de transformação.

E a arte tem sido ferramenta indispensável. Os parques-bibliotecas e os inúmeros eventos culturais nessas cidades são prova disso. Para se ter uma ideia, nos anos 90, Medellín tinha 380 homicídios para cada 100 mil habitantes, o que lhe rendeu o título de cidade mais violenta do mundo.

Os números da violência foram caindo com a implantação do processo de cultura cidadã e chegaram, em 2016, a apenas 21 homicídios por cada 100 mil habitantes. Com inúmeros projetos de música, teatro, dança, arte e literatura, a cidade vem enfrentando com êxito a violência e a pobreza – o que se refletiu também na economia: desde 2010, o produto interno bruto da região vem crescendo acima de 3% ao ano.

Recife

Pernambuco vem tentando algo parecido. Os dois COMPAZ construídos pela Prefeitura do Recife são iniciativas importantes para a capital nesse sentido, inspiradas no modelo colombiano – ainda que tenham sido elaborados com proposta, em um aspecto, diferentes dos equipamentos da Colômbia: lá são as próprias bibliotecas equipamentos públicos; aqui, são equipamentos públicos com bibliotecas dentro, o que faz muita diferença.

Todavia, os bons números revelam que a proposta dos COMPAZ precisa ter continuidade, seja qual for o grupo político que ocupe o poder – aliás, cabe à população cobrar políticas de continuidade do que funciona (lá na Colômbia se multiplicaram os observatórios de cultura, instrumentos de cobrança da população).

Só o COMPAZ Ariano Suassuna, que tem apenas um ano de funcionamento e possui 12 mil pessoas cadastradas, através de suas atividades, contribuiu para uma redução de 8% da violência nos bairros de seu entorno, em se comparando com os números da violência na cidade como um todo, que aumentaram no período. Mudar a maneira de olhar para o público é urgente nas bandas de cá!

A segunda reflexão é justamente o já abordado valor fundamental da arte e da cultura para a civilidade e desenvolvimento social. Num país agigantado como o nosso, o olhar para o artista e para o fazer artístico – e consequentes programas que promovam esse tipo de trabalho – se faz indispensável para transformar a nossa própria noção de povo.

A exemplo da Colômbia, estimular isso vai gerar cidadãos mais críticos, participativos e conscientes dos papéis sociais que podem exercer (sem falar na ludicidade, que anda faltando nas nossas relações sociais).

Infelizmente, ser artista no Brasil e promover cultura é apenas para os loucos e apaixonados por esse ofício… E você, caro artista, como eu, deve utilizar os próprios saberes não somente quando recebe cachê ou afins. Levar cultura para o povo também é nossa obrigação; cobrar dos agentes públicos, lutar por valorização, mas também agir (inclusive envolvendo a iniciativa privada, independente de editais). Essa é a receita.

Fico pensando no maltrapilho do início deste artigo, no seu interesse pelo que acontece no mundo, na sua maneira de sorver conhecimento. Fico pensando também naquele público tão preparado que participou do painel comigo e Sierra no parque-biblioteca El Tunal, tão rico a abrigar gente cada vez menos pobre.

Quiçá nosso Brasil um dia possa ter mais pessoas como aquelas que agora povoam minha memória. E ainda que a Colômbia não seja ainda o paraíso ideal, que possamos ao menos nos espelhar nela para melhorar nossa realidade cidadã.

 

Sidney Nicéas é escritor e tem cinco obras publicadas, sendo a mais recente “Noite em Clara – um Romance (e uma Mulher) em Fragmentos”. Realiza palestras, workshops e oficinas de Criatividade e Escrita e é apresentador do programa “Tesão Literário”, na TV Pimenta (webtv). Contato: sidneyniceas@gmail.com.

 

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