Olinda: patrimônio do grafite e do pixo

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Imagem: Rodrigo Édipo

Além de recomendável exercício aeróbico, caminhar ‘de pés’ e sem pressa pelas ladeiras do Sítio Histórico de Olinda é uma oportunidade para absorver em detalhes as singularidades históricas construídas pelos nossos ascendentes ao longo do tempo.

É um despertar poder compreender como o meu corpo reage às informações emitidas pela paisagem e de que forma ele se mostra como um meio de apreensão, leitura e interpretação de uma linguagem do agora que se revela sempre como única e efêmera.

Com o tempo, fui descobrindo como essa prática também me impulsiona a recriar outros vínculos com a cidade e a vizinhança, uma espécie de remix das narrativas tradicionais que nos empurram goela abaixo.

A partir dessa proposição mais aberta e sutil de troca com a cidade, as imagens que mais têm me tocado ultimamente não advêm das ladeiras, dos altos coqueiros, das históricas igrejas ou da arquitetura barroca, mas sim do colorido das intervenções gráficas espontâneas nas fachadas e muros dos imóveis.

Fotos: Rodrigo Édipo/PorAqui

Penso sempre que deveria ser notório o reconhecimento da grande riqueza por trás dos grafites e dos pixos que aqui estão, pois, queiram ou não, essas manifestações expressam as identidades, as maneiras de viver e as visões de mundo de parte dos moradores e visitantes da cidade.

Apesar de evidente, esse tema é cercado de polêmica, pois tensiona questões de valores tradicionais, estéticos e, principalmente, preconceito de classe e raça.

O patrimônio hoje

Mesmo sendo reconhecido e tombado como Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO (1982), o Sítio Histórico de Olinda apresenta traços de abandono cultural e descaracterização arquitetônica que são fáceis de associar ao descaso do poder público com o plano de preservação para a região.

Diante da inconcebível negligência política do governo de fazer o seu papel, é comum a gestão pública culpar a livre manifestação político-estética de um povo, insinuando e incitando publicamente que tais intervenções gráficas são as grandes inimigas do patrimônio, o que para mim significa claramente tirar o corpo fora das próprias responsabilidades como gestores públicos e, na grande maioria, incidir a culpa mais uma vez em cima de uma população preta, pobre e periférica que está, dia após dia, sumindo do mapa.

Imagem: Rodrigo Édipo

O grafite e o pixo no Sítio Histórico de Olinda, como em qualquer outro lugar do mundo, estão aptos a sintetizar dados essenciais a respeito de uma realidade social e urbana, assim como são elementos chaves para a interpretação do ambiente, influenciando no sentimento de pertencimento e no mapeamento gráfico do lugar, representando símbolos que narram um panorama histórico mais temperado e menos asséptico da vida urbana. 

Será que assim como os nossos antepassados rupestres, os artistas urbanos de hoje também não estão sinalizando caminhos para algo maior do que um simples rabisco em um muro “intocável”?

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