Conheça o movimento olindense que uniu patrimônio e arte durante o Golpe de 1964

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O escultor e gravurista Ypiranga Filho fez parte do movimento que restaurou o Mercado da Ribeira. Foto: Divulgação

Na última semana foi reacesa uma tensão no Sítio Histórico de Olinda referente à relação da preservação do patrimônio e o viés artístico de resistência do grafite e do pixo que, para o lamento de alguns preservacionistas, praticamente já fazem parte do DNA da paisagem tombada da cidade.

Dispostos de forma antagônica por determinados ramos da sociedade, a relação entre o patrimônio e a arte (principalmente não-erudita), se vista de forma mais plural e despida de preconceito, pode representar um campo profundo e inspirador para a expressão e interpretação do pensamento criativo de um povo, além de servir como ferramenta para a educação patrimonial e transformação social.

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Em Olinda, um movimento da década de 1960 é um exemplo de como ambos podem estar associados mesmo diante de um contexto político delicado. O Movimento da Ribeira (1964), realizado nos boxes e arredores do Mercado da Ribeira, reuniu um coletivo de criadores que buscavam se libertar das amarras eruditas e que prezavam pela aproximação com as técnicas populares em prol da valorização do Sítio Histórico de Olinda.

Tropas do exército ocupando as ruas do Recife no início dos anos 1960.

Em um contexto pós-golpe de 1964, a parte histórica da cidade representava uma espécie de bunker artístico-cultural para esse artistas que precisavam se refugiar dos bombardeios da ditadura militar que em Recife estavam pra lá de violentos. Para o escultor Ypiranga Filho, um dos membros do coletivo que fundou o Movimento da Ribeira, “Olinda passou a ser a meca dos intelectuais perseguidos”.

O sossego e a tranquilidade do Sítio Histórico aliados à gestão esquerdista do Prefeito Eufrásio Barbosa, homem ligado às artes, proporcionou um terreno fértil para a experimentação artística. Assim, a parceria daqueles artistas com uma gestão pública de olho no turismo e interessada nas tradições artísticas e culturais de Olinda, terminou por restaurar o Mercado da Ribeira.

De mercado decadente a centro cultural

O olho clínico da artista Guita Charifker viu potencial no Mercado da Ribeira. Arte: Roberto Ploeg

Segundo escritos, na década de 1960, o Mercado da Ribeira era um “decadente mercado de carne” que foi “descoberto” pelos artistas Guita Charifker e José Tavares durante um rolêzinho pelo Sítio Histórico de Olinda provavelmente à procura de um refúgio na cidade.

Recém-empossado como Diretor de Turismo de Olinda, o artista Adão Pinheiro deu o aval para que os artistas pudessem ocupar os boxes do Mercado e assim foi iniciado um importante movimento de restauro do prédio promovido pelos próprios artistas em sintonia com as diretrizes arquitetônicas do DPHAN, órgão federal de preservação na época.

O artista Montez Magno fez parte do movimento. Foto: Daniel Rozowykwiat/Cepe

Participaram da restauração os já citados Guita Charifker, José Tavares e Adão Pinheiro, o entalhador e morador de Olinda José Barbosa, o escultor e gravurista Ypiranga Filho, o artista Roberto Amorim, o pintor João Câmara, o artista Vicente do Rego, o baiano Anchises, o artista Montez Magno e Tiago Amorim.

Fake new & restauro

Placa de concreto confeccionada pelos artistas inventa uma nova história para o Mercado. Foto: Acervo Ypiranga Filho

Mas por que o DPHAN foi ativado se o Mercado da Ribeira não era um monumento tombado ou sob proteção especial? Simples, tudo começou a partir de uma criação dos próprios artistas que serviu como um happening para chamar atenção ao lugar.

Eles inventaram que o local tinha sido um mercado de escravos, o que não é uma verdade. Mas como os artistas precisavam de um apoio do DPHAN para realizarem os restauros, lançaram a ideia e o órgão teria lindamente engolido a corda. A ideia foi legitimada por Adão Pinheiro em artigo escrito para um jornal da época.

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Na placa de concreto instalada na entrada do Mercado e confeccionada para a reinauguração do lugar foi gravada a seguinte frase, “Antigo Mercado de Escravos”. Com a notícia fake, o movimento conseguiu que o Mercado da Ribeira fosse visto como patrimônio e restaurado a partir de orientações técnicas específicas.

Tereza Costa Rêgo participou da exposição só de mulheres. Foto: Arquivo pessoal

Uma vez restaurado, os artistas ocuparam os boxes do Mercado com oficinas de arte (pintura, xilogravura, história da arte) e o salão principal era destinado às exposições, como por exemplo a dedicada 100% às artistas mulheres da época, chamada A mulher na Arte Pernambucana.

Assim, a parceira entre artistas cientes dos princípios de conservação do patrimônio e um poder público interessado na imagem artístico-cultural da cidade dentro e fora, proporcionou a guinada de um prédio que se encontrava em franco abandono.

Fontes: Utopia do Olhar (Raul Córdula) e De Montmartre nordestina a mercado persa de luxo : o Sítio Histórico de Olinda e a participação dos moradores na salvaguarda do patrimônio cultural (Juliana Cunha Barreto).



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