Sobrou outubro no fim do salário ou por que nascem tantas pessoas neste mês

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Foto: Diego Nigro/PCR

Outubro definitivamente é o mês do ano que o 13º salário deveria aparecer sorridente no meu triste extrato bancário, pois meu dinheiro não dá conta de tanto presente que preciso comprar. A quantidade de amigos, inimigos e parentes, que sempre são inimigos e amigos ao mesmo tempo, aniversariando neste mês é intrigante.

Na minha visão de mundo, com os óculos embaçados pelo calor dos trópicos e umidade recifense, esse fenômeno se dá principalmente por duas causas, acasalamento devido ao encontro fervilhante e profícuo oriundo das ladeiras de Olinda ou acasalamento devido ao encontro inevitável e molhado da praia de Boa Viagem.

Não exatamente nesta ordem, não exatamente nestes locais, mas certamente oriundo da sensualidade e aceleração dos batimentos cardíacos que a estação do ano mais darwiniana de todas, o Verão, causa em nós. Por isso costumo dizer que outubro é o mês das consequências carnavalescas.

Nascem mulatos, caboclos e albinos. Choram-se as lágrimas de amor e tesão transformadas em tratados de quase eternidade, vulgo filhos, mas o fato é que muita gente vem ao mundo no décimo mês do ano. Fico me perguntando qual o impacto da taxa de fertilidade pelas bandas de cá se a temperatura fosse um grau acima ou um grau abaixo.

Já pensou se no início do ano de 1913, na sensualíssima e quente Rio de Janeiro, a temperatura tivesse sido 3 graus célsius abaixo? Talvez nosso poetinha e tradutor mor dos sentimentos coronarianos, Vinicius de Moraes, não tivesse nascido como o fez em 19 de outubro daquele ano. Você acha mesmo que o mundo seria o mesmo, ou melhor, se este ébrio homem lúcido não tivesse passado por aqui?

Queiramos ou não, o que fazemos e deixamos de fazer embaixo do dragão do Eu Acho é Pouco, na Torre Malakoff ou no ar-condicionado que disfarça a realidade, mas não diminui a saliência, gera futuro e compromete minha conta bancária.

Façamos um trato, ao menos nesta cidade que tem certeza que deu origem ao mundo, de continuarmos dançando e procriando sim, mas por favor antecipem o 13º salário para já. Ele poderia chamar-se apenas de décimo, não me importa, assim economizaríamos tinta, papel e árvores, mas sairíamos da zona de impotência também conhecida por cheque especial.

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral.

 

 

Crônica aberta para uma manhã de domingo



comment 6 comentários

  1. Ótima reflexão! Diego sempre nos trazendo uma ótica reflexiva, cotidiana e divertida! Parabéns!!

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