O que eu aprendi caminhando pelo meu bairro

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Foto: Suzana Souza/PorAqui

Era uma quarta-feira de outubro quando eu acordei meio encucada com o fato de eu sentir uma certa falta de vivência no meu bairro, Setúbal, Zona Sul do Recife, e resolvi me propor algo fora da caixinha. Apesar de frequentar sempre os eventos promovidos pelos moradores, participar de algumas causas e tentar ao máximo Viver Meu Bairro, como no manifesto criado pelo PorAqui, onde sou estagiária, sentia algo faltando. Foi assim que eu decidi sair de casa numa manhã e conversar com estranhos aleatórios na rua (a estranha sou eu, né? ?). O plano era conversar com quem passasse ao meu lado com o mínimo de abertura.

Moro em Setúbal desde os meus cinco anos de idade. Nasci em São Paulo, mas a verdade é que sou pernambucana. Meu amor pelo carnaval, minha paixão pelas pontes e rios da cidade, e, principalmente, meu sotaque arrastado atestam isso a essa altura do campeonato que completo meus 20 e poucos anos de vida.

Um pouco diferente do habitual, eu moro em uma casa e nunca morei em apartamento. O imaginário coletivo tende a achar que pessoas que moram em casas são mais próximas dos vizinhos e do bairro, mas não é bem isso que acontece, pelo menos não em um bairro de classe média do Recife. Acho que é justamente o contrário. O medo de quem mora em casa acaba se tornando uma grade ainda maior do que aquelas que encontramos nas caixinhas de morar, também conhecidas como edifícios.

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Maria Aurora

Encontrei uma senhora que eu já havia visto algumas vezes, mas sempre distante. Ela mora em um prédio de três andares, aqueles de caixote, aqui perto de casa. Contei a ela sobre o meu “projeto” e disse que queria conversar com ela um pouco. Na hora ela topou e me contou seu nome: Maria Aurora. De cara me senti extremamente apaixonada por aquela senhorinha de cabelos meio brancos, roupa de florzinha e cheiro de lavanda.

Ela me contou dos filhos, dos anos que trabalhou em uma padaria e da jornada que tem que viver todos os dias: avó e costureira. Maria me contou do seu marido, já falecido, que a ajudava em tudo. Acho bonito quando vejo amor na boca das pessoas, sempre transborda pelos olhos brilhantes que insistem em se enxaguar. Sinto isso vivo quando falo dos meus falecidos avós. Maria me contou dos seus avós também e também enxaguou seus olhos com amor: me disse que aprendeu a costurar com sua avó Dona Silvana, quando ainda era pequena, e que seu avô a levava sempre pra passear na praia.

Maria me contou das manhã animadas na padaria, na primeira terça-feira de todo mês, quando era feita a festa dos aniversariantes do mês. Maria me contou sobre sua alergia a camarão que, olha só, é algo que compartilhamos. Maria me contou sobre a viagem que fez a Porto de Galinhas quando se casou com seu marido, e claro, me contou sobre seu casamento.

Me disse sobre sua filha única, que tem 34 anos e 3 filhos. Me contou da felicidade que tem quando fica em casa e cuida das crianças. Nesse ponto, como toda boa vó babona, Maria me mostrou fotos das crianças no seu celular.

E foi assim que eu conheci uma mulher de 68 anos, mãe, avó, mulher, filha, neta, ex-balconista, costureira, de cabelos levemente grisalhos e olhos marrons. Assim eu conheci Maria Aurora, uma senhora que eu nunca havia prestado atenção que estava ali. Assim eu me conectei um pouco mais a quem eu sou aqui, no Recife, minha cidade, meu cantinho amado.

Não consegui tirar nenhuma foto dela, tampouco peguei algum contato ou telefone pra conversarmos mais. A única coisa que fica em minha memória é a felicidade de morar onde eu moro e de poder conhecer pessoas especiais.



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