Meu amigo, o porteiro: duas histórias de Setúbal

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Foto: Nadezhda Bezerra

Uma figura ímpar faz parte da vida de todo morador de edifício: o porteiro. A bem da verdade, é que, em Setúbal, tem porteiro com mais de 20, 30 anos em um único lugar. Gente que viu gente nascer, crescer e morrer. Viu menino virar pai, homem virar avô e o mais peste dos pirralhas virar doutor.

Para muitos, eles são invisíveis, parte constituinte da portaria e só, já para outros, eles são os “brothers” incapazes de uma delação, mesmo que premiada. São porta-vozes de mães precisando mandar o filho subir. São amigos ajudando a carregar a feira ou as malas de uma viagem. Batem pelada na folga com os moradores mais esportistas e dividem suas histórias com aqueles que se importam. Para dar rosto e voz a esses profissionais, encontramos dois porteiros que dividiram suas histórias com a gente.

O “Coroa”

Waldomiro Barbosa (foto em destaque) começou na construção civil ainda na década de 1970. Cansado do peso das obras, viu no trabalho como porteiro uma oportunidade de pegar mais leve. Trabalhou em dois prédios em Boa Viagem até que chegou a Setúbal, onde está há 22 anos.

No prédio de apenas seis apartamentos, o Coroa, como é chamado, viveu a tristeza da morte do síndico que lhe deu o emprego e com quem tinha uma afetuosa relação. Hoje se alegra em ver os filhos dos filhos dele, a terceira geração que, apesar de morar em outro lugar, é tão apegada a ele quanto os pais e avós foram.

Morador também do prédio, em um kitnet construído especialmente para ele, Coroa só vai pra casa nos fins de semana, mas não pense que ele trabalha 24h por isso, a noite é seu descanso. Segundo ele, o trabalho é tranquilo e ele não tem aperreios. Passeia pelo bairro, conhece muita gente, faz compras e companhia pros moradores e, apesar de aposentado há 4 anos, não resistiu aos apelos de continuar “em casa”. Quando perguntado sobre uma grande alegria nesses 22 anos a resposta foi ligeira: “Todos os dias aqui são alegres”.

Amaro

Foto: Nadezhda Bezerra

Ele tinha 23 anos quando começou a trabalhar como porteiro, mas já sabia o que era a lida desde os 10. Os irmãos mais velhos, Alcides e Edson, que o trouxeram pro prédio onde está desde 1993.

Amaro sempre foi porteiro noturno, mas o serviço solitário não o impediu de criar laços com vários moradores do prédio, “alguns são como família pra mim”, diz ele, que chorou a perda de uma das moradoras mais queridas como quem chora a morte de um parente.

E, por falar em família, foi o trabalho que o levou a formar uma: Amaro se apaixonou por Fátima, que prestava serviços domésticos em um dos apartamentos. São mais de 20 anos de casados, filhas e uma neta que ele deixa em casa com a esposa sozinha para zelar pelas famílias do condomínio. “É daqui que tiro o meu sustento e o delas, então vale a pena”. Sobre ter tido outra profissão, Amaro responde: “não pude estudar, então me agarrei à oportunidade que apareceu”.

Tendo visto muita gente crescer e formar família, Amaro atesta que as crianças de hoje são muito mais calmas que a geração dos anos 1990 e solta uma risada tímida pra quem sabe do que ele está falando.

E você, tem alguma história bacana com o porteiro do seu prédio? Conta pra gente. ???



comment 3 comentários

  1. Quanta emoção!! Seu coroa e O nosso querido Amaro um grande abraço para todos os porteiros.Parabéns por reportagem tão linda!!??????
  2. Eu tenho um amigo que é porteiro, sabe o nome de todo mundo e conta as histórias divertidas dele pra gente, um homem que está a tanto tempo no ramo, conversamos com ele enquanto ele abre os portões e o clássico som do portão abrindo ME IRRITA. Um abraços pro meu amigo Arthur Pires, porteiro a mais de 20 anos
    1. Também o conheço, realmente o melhor porteiro de Setúbal ! Grande história de superação e amor pelo trabalho que exerce.

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