Crônica aberta para uma manhã de domingo

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(Arte: Thiago Ramos)

Estou aqui sentado na sala de estar da minha casa que é onde também fica o escritório, assim as coisas se tornam mais compartilhadas e abertas. Neste momento, ingressa por aqui uma iluminação no limiar do incandescente, mas sem romper a fronteira do desconfortável, própria do sol matinal de domingo. Perdoem-me os sábados, perdoem-me as terças, mas o sol e energia da manhã de domingo gritam uma atmosfera mais próxima aos sons dos pássaros.

Estou aqui sentado e escolhi sentar em frente a um computador de mesa e largar o celular um pouco. Isso significa que minha intenção era produzir, pois aquele aparelho pequeno que se fantasia de completo de tudo, na verdade nos deixa repleto de nada.

Lispector, Bandeira, Vinicius

Minha intenção hoje era flertar com a crônica, fui fuçar Lispector, um pouco de Bandeira, mas o que sempre me marcou com ranhuras na alma foi uma crônica de Vinicius em defesa dos casais de namorados nos bancos das praças públicas.

Ele começa dizendo que os casais de namorados pertencem ao patrimônio de uma cidade e pede ao Senhor Prefeito e ao Senhor Diretor do Jardim Botânico que “deixem-os namorar, afinal existem cada vez menos lugares onde ir esconder seus anseios”. Ele emenda, “perseguir os namorados, da mesma forma que arrancar as plantas dos parques, ou maltratar os animais, é indício de mau caráter”.

Uma foto da realidade

Esse tipo de texto que fala do cotidiano, que muitas vezes tem uma pitada de humor, mas traz uma perspectiva quase fotográfica a fatos ou temas rotineiros é a tal da crônica, onde eu tento me aventurar sem saber muito o tipo de linha que deveria usar para costurar.

De repente, me pego perguntando o tema central dessa pressuposta crônica e volto a viajar pelas manhãs de domingos das casas e ruas dos recifenses, os atletas amadores calçando seus tênis e amarrando seus cadarços numa certa pressa ansiosa, pois hoje tem corrida de rua e o desejo de se completar em tempo recorde é alto.

Também tem aqueles que simplesmente vão experimentar o novo serviço de bicicleta compartilhada da cidade e, junto com seus afetos, vão fazer uma espécie de turismo cidadão nesse lugar que, apesar dos mil pesares, teima em ser bonito.

Existem os que vão tomar um café com jornal digital na padaria mais próxima, os que já vão se encontrar no bar porque mal dormiram à noite e ainda precisam estabilizar o que é noite, o que é dia e principalmente o que se fez e se deixou de fazer na festa passada.

Ato de resistência

Também tem aqueles que, assim como eu, preferem usar a luz deste domingo matinal para estar em casa, bem no meio da sala de estar, e praticar um ato de resistência consciente diante da inesgotável tendência humana de acelerar, na grande maioria das vezes em direção ao nada ou a um muro de concreto mesmo.

Daqui, diante desse meu cockpit às avessas, eu vejo o mundo em câmera lenta, consigo perceber música e ruídos naturais sobreviventes, preparo meu chá, modelo um pedaço extenso de futuro junto com meu filho, contemplo a suavidade de um movimento despretensioso feito por minha esposa e principalmente, extravaso esperança e otimismo para uma cidade que, aos domingos pela manhã, torna-se um protótipo do que talvez devesse ser todos os outros dias da semana.

Diego Garcez é sobretudo poeta, mas encontrou na crônica uma forma de diálogo mais palatável para o mundo das pernas aceleradas. É formado em relações internacionais, empreendedor e entusiasta do Porto Digital, corredor nas horas vagas e pai em tempo absolutamente integral.



comment 4 comentários

  1. Excelente reflexão sobre a acelerada e por vezes vazia vida cotidiana e as manhãs de domingo. Gostei muito da leitura. João Thiago

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