Nem todas as cinzas são ingratas

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Ilustração: Sebba

“O Bacalhau estava vindo e papai era amigo de Batata e de muitas pessoas do bloco e na hora teve aquela coisa esquisita. Em plena Quarta-feira de Cinzas… Eles perceberam que era um velório e silenciaram. Fizeram reverência para a minha família. E minha mãe disse ´não, toquem’ e eles voltaram tocando baixinho ‘a nossa vida é um carnaval, a gente brinca escondendo a dor’…”

A incrível cena contada pela designer Amélia Paes aconteceu no velório de Antenor Vieira de Melo Filho, em frente à Igreja de São Sebastião, na Cidade Alta, no dia 13 de fevereiro de 2013. Filha de um dos principais responsáveis pelo projeto que foi defendido pelo então presidente da Fundação Nacional Pró-Memória (ainda não existia Ministério da Cultura), Aluizio Magalhães, e que levou Olinda a se tornar reconhecida pela Unesco como Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade em 1982, ela lembra sem demonstrar tristeza da despedida do seu pai, que coincidiu com o fim da mais tradicional festa da nossa cultura popular.

Dez anos antes, Lú Araujo saia justamente do bloco Bacalhau do Batata quando viu alguns foliões embriagados jogando garrafas de cerveja na porta de uma igreja olindense e teve a ideia de criar um movimento cultural para defender o patrimônio arquitetônico e cultural das nossas cidades de forma prazerosa. E Antenor “sempre ia ao MIMO. Todos os anos. E chegou inclusive a ir ano passado, mesmo abatido por uma virose”, contava a filha dele. Diabético, o arquiteto viria a falecer na terça-feira de Carnaval de 2013 após sofrer um infarto.

Para Amélia, o mais “doido” foi voltar para casa após o velório e a cidade ainda estar em festa. Ela conta que as homenagens surgidas até mesmo de anônimos foliões acabaram sendo muito reconfortantes para a família. Do vizinho Luiz que tocou bumbo enquanto os irmãos e amigos carregavam o caixão para iniciar o cortejo do funeral. Até os alunos do curso de arquitetura da UFPE que fazem parte do Bebericar (Bloco Etílico Babilônico Exuberante Revolucionário Inebriante e Carnavalesco Antenor é Rei) e jogaram os bigodes e coroas que são os símbolos do “Rei do Bigode” para serem enterrados junto com o corpo no Cemitério Morada da Paz, em Paulista.

A família voltou para casa e continuou recebendo homenagens. Amélia lembra que um índio muito amigo do seu pai e conhecido em Olinda, Boró, chegou a fazer um ritual com outros cinco indígenas em baixo da janela do sobrado. E conta também de quando os afoxés passavam no último fôlego da festa. “O Alafin Oyó veio tocar embaixo da varanda dele e eles não sabiam que papai tinha morrido. Mas quando a gente avisou a Rua do Amparo inteira parou pra tocar pra ele. Foi lindo”, lembra a designer.

Aos 63 anos, Antenor faleceu deixando três filhos (Amélia, Renata e Pedro) e sua esposa Nazaré Reis, além de centenas de projetos artísticos e culturais a serem escavados. A comunidade acadêmica também lamentou o falecimento: “Ele era um professor que tinha um conhecimento prático muito grande”, destacava a coordenadora do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFPE, Maria de Jesus de Britto Leite, ressaltando a importância do professor olindense ao incentivar a preservação do patrimônio entre os alunos.

Muito provavelmente, a contribuição de Antenor ao lado do também arquiteto Tinoco para a criação do Sistema Municipal de Preservação, prerrogativa da UNESCO na época para obtenção do título da Unesco para Olinda, seja o trabalho mais lembrado do professor de arquitetura. Mas ele criou e dirigiu na época do prefeito Germano Coelho o Centro de Preservação dos Sítios Históricos de Olinda e coordenou diversos projetos de restauração de imóveis importantes da cidade, entre eles a Igreja de São Sebastião, Mercado Eufrásio Barbosa e o Palácio dos Governadores – sede da Prefeitura de Olinda.

Algumas das histórias dessa trajetória de defesa do patrimônio arquitetônico de Olinda nem mesmo a família do arquiteto conhecia e Amélia diz que se surpreendeu ainda no velório. “Durante a restauração da Igreja de São Sebastião foi encontrada uma pintura. E meu pai organizou uma obra-escola para restaurar a descoberta. Mas eu nunca tinha visto. E de repente chegou uma ex-aluna que aprendeu naquela época a restaurar (Debora) e abriu o altar da igreja, para todo mundo ver a pintura”, conta ela, ressaltando que mesmo 30 anos após a restauração a obra continuava intacta.

No entanto, como quem presenciou Lú Araujo voltar para sua residência temporária de carnaval em Olinda e contar que iria criar o MIMO, poucos puderam sentir a emoção de quem ouviu a filha mais velha de Antenor cantar no seu velório a letra de um frevo escrito pelo seu pai.

Recado para o meu povo
Antenor Vieira de Melo Filho

Não há saudade que mate essa vontade
De brincar com vocês no meio do carnaval

Não há saudade que mate essa vontade
De brincar com vocês no meio do carnaval

O sol raiando mas é cedo ainda pra morrer tanta alegria nas ladeiras de Olinda
O sol raiando mas é cedo ainda pra morrer tanta alegria nas ladeiras de Olinda

Pula meu povo, sacode a tristeza de lado
Segura esse frevo rasgado que a vida é suor, fantasia
Pula meu povo que a quarta mandou seu recado
Está findando esse nosso reinado
A tristeza venceu, é outro dia

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