Da Bahia a Jardim São Paulo, uma cantora chamada Mayara Pera

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Há 10 anos, do Conjunto Residencial Felipe Camarão, em Jardim São Paulo, Zona Oeste do Recife, alguns acordes e canções vão nascendo. O impulso de contar suas estórias, de fazê-las música, o impulso para a arte (assim como para a vida) transformaram Mayara Pera em uma artista.

A cantora e compositora de 27 anos mora desde os 14 em Jardim São Paulo. E foi no bairro que todas as suas composições nasceram. Cronista de sua vida, ela leva às letras das suas canções fatos que viu e viveu.

Aquariana com ascendente em leão (ela é viciada no universo zodiacal), Mayara se divide, agora, entre duas vocações: a de artista e mãe. Presenteou o mundo com os pequenos Dom e Martin e, em 2017, vem retomando sua carreira musical, adormecida durante cinco anos.

(Foto: Facebook/Maya Pera)

O tempero baiano no sangue (nascida em Euclides da Cunha), com pitadas de Pernambuco (antes do Recife, morou em Águas Belas e Arcoverde), foi farto alimento para fazer nascer a artista.

Amores, traições, dedicatórias – em geral, ácidas – a ex-namorados, críticas comportamentais são sua inspiração constante e que se transformam em músicas, por vezes, bonitas e “fofinhas”; por outras, carregadas de sarcasmo. Em sua maioria, rocks, baladas, folks e blues.

Bagagem musical

Mayara traz uma bagagem musical que é herança do seu pai, Deusival Costa (in memorian). Tanto vê-lo tocando violão quanto ouvir o que ela ouvia contribuíram para sua base.

Foi ainda criança, em Águas Belas, na vitrola do pai, que ouviu, pela primeira vez, Mosca na Sopa, de Raul Seixas, baiano assim como ela. “O meu primeiro amor de música de adulto foi Raul”, lembra.

E as influências não ficaram só aí: “Na radiola dele, tocava muito Roberto Carlos, Jovem Guarda, Beatles, Caetano, Gil”, lembra ela.

Confira Palhaço, um das composições de Mayara Pera:

O rádio também entrou nessa formação, quebrando um pouco da seriedade e dos preconceitos. “No interior, aprendi as músicas que tocavam no rádio, que eram as músicas de novela ou aqueles forrós estilizados”, revela.

Já em Arcoverde, foi um amigo, Tardeli, quem lhe despertou outros gostos. “Ele quem me apresentou Beatles (apesar de eu já escutar em casa, mas ele explicava fase por fase, cada disco), Mutantes… e também me apresentou o som regional”.

Primeiros acordes

Não demorou muito, quis aprender a tocar um instrumento. Violino era a primeira opção. Mas logo descartada. “Pedi a minha mãe para me botar numa aula de violino. Mas não tinha aula de violino lá (em Arcoverde) nem tinha o violino”, conta.

Foi para o violão. O “professor” era o irmão mais velho, Deivid, que optou por um método pouco convencional: impôs a Mayara todas as dificuldades possíveis (só ensinou duas notas, trocou as cordas de nylon por outras de aço, desafinou o violão).

Mayara Pera em show no Burburinho (Foto: Facebook/Mayara Pera)

Segundo Mayara, “a má vontade e a preguiça” do irmão acabaram fazendo com que ela, com seu próprio esforço e obstinação em aprender, “se virasse nos 30”. Para toda barreira, ela, por si só, acabou achando uma solução.

Em Cada Amanhecer, uma música de Fábio Jr., foi a primeira que aprendeu a tocar sozinha, de ouvido.

Bandas

Já no Recife, ela sobe mais um nível no envolvimento com a música. Aos 17 anos, fez sua primeira composição, Só no Pó. São desse período suas primeiras bandas: Zé Ninguém (“A banda era horrível!”, lembra) e outra, com “os meninos da igreja”.

Em 2008, ela formaria a banda onde exercitou, com mais plenitude, seu lado artista: Lulu Champanhe. Formada só por meninas, tinha Mayara como vocalista e compositora. E foi aí que ela delineou a persona performática, de língua e atitudes afiadas.

Mayara Pera em participação no show de Helton Moura (Foto: Facebook/Mayara Pera)

“Eu achava que ter uma banda e ficar lá na frente, só cantando, não tinha graça. Acho que tem que ter um espetáculo. Não é só uma música. Tem uma história e ela precisa ser interpretada”, diz ela, que, apesar de se dizer tímida, se desinibe no palco.

A banda chegou ao fim em 2011. De lá para cá, Mayara encarnou Rita Lee, num projeto dedicado à cantora, que durou pouco. Casou-se e foi mãe. O lado artista parecia ter ficado na gaveta. Mas o espetáculo haveria de continuar.

Retorno

À custa de muita insistência dos amigos e do marido, Danillo, Mayara cedeu e começou a dar os primeiros passos para um retorno. A primeira pílula disso foi o vídeo da canção É Seu!, composição dela, com produção audiovisual de Danillo, disponível em seu canal no YouTube.

Bastante visualizado e compartilhado à época, a recepção do vídeo motivou um retorno. O “bichinho da música” mordia Mayara novamente.

Voltou aos palcos em maio, se apresentando no Recife Lo-Fi, do músico e amigo Zeca Viana. Atualmente, Mayara é acompanhada pelo marido, Danillo Campelo (guitarra), Rafael Bandeira (guitarra), Raoni Xavier (baixo) e Carol (bateria). O entrosamento foi rápido. De maio para cá, ela já fez cinco shows, com outros engatilhados pela frente.

Mayara Pera (esq), em ensaio com a banda (Foto: Facebook/Mayara Pera)

“Eu ‘tô’ compondo freneticamente. ‘Tô’ feliz! Não sei fazer outra coisa na vida. E o que interessa é que estou fazendo aquilo que eu gosto”, fala Mayara sobre seu retorno à trajetória de cantora e compositora.

Nos caminhos e descaminhos da vida, ela sempre trouxe consigo o DNA de artista, uma voz que diz a sua história, em verdades cheias de poesia. “Eu nunca me calo quando acontece alguma coisa na minha vida. Talvez, eu nem sempre posso contar, mas eu canto”.

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