Fecin: memória de uma festa amada pelos recifenses

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Feira anual marcou a infância de centenas de recifenses, como André e Andréa (foto: acervo família Falcão)

Os pernambucanos com mais de cinquenta anos guardam com afeto a lembrança de uma espécie de “disneylândia” local, mesmo após mais de três décadas do fim de seu funcionamento. A Feira do Comércio e da Indústria do Nordeste (Fecin) inicialmente aconteceu no Curado, na área onde atualmente funciona o Centro de Abastecimento e Logística de Pernambuco (Ceasa), e em seguida foi trazida para a Jaqueira, onde funcionaram várias edições da festa, até o fim dos anos 1970.

O espaço era tomado por pavilhões de representações de empresas de toda a região. Em 1969, por exemplo, o jornal Correio da Manhã publicou uma matéria falando da “maior feira-exposição do Nordeste”, destacando o apoio da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) e apresentando um mapa da distribuição dos pavilhões do evento. Centenas de negócios eram fechados durante a Fecin, mas, para a criançada, o que interessava mesmo era o “super parque de diversões”.

Planta publicada no jornal Correio da Manhã mostra a distribuição dos pavilhões na Jaqueira

Entre os vários brinquedos, se destacava um enorme tobogã, sinônimo nacional de modernidade e ousadia (a febre era tamanha em todo o país que motivou Raul Seixas a reclamar: “macaco, praia, carro, jornal, tobogã, eu acho tudo isso um saco”). Para deslizar no imenso escorrego, era preciso sentar sobre um tapete ou saco de estopa; o atrito era tão grande que os desavisados que tiravam as mãos do pano e tocavam na rampa sofriam queimaduras. Por causa disso, e pela altura do brinquedo, muitos saudosistas relatam o trauma de jamais terem descido no tobogã por culpa das avós e das mães. Ainda assim, restava como consolo a chance de brincar em outros brinquedos menos emocionantes.

“Lembro de frequentar a Fecin, mas era muito pequeno. Meu pai, Raimundo Santiago, tinha uma loja de móveis modulares e expunha em um quiosque na feira. Eu tinha uns cinco ou seis anos e lembro do parque de diversões e de jogos eletrônicos. Para mim, era uma coisa de outro mundo”, conta o radialista Ricardo Santiago, que diz não saber o quanto de sua memória infantil é verdade. “Não tenho a menor ideia da dimensão real da festa”, explica.

A mesma lembrança um pouco nebulosa é citada pelos jornalistas Rita Vasconcelos e André Falcão (cuja foto aos quatro anos, junto com a irmã Andréa, ilustra esta matéria). “Eu gostava de ir, mas não sei lhe dizer quase nada”, lamenta André. “Eu não tenho nenhuma foto, mas ia muito, porque meu pai era funcionário do Detran e ganhava ingresso. Era como ir à Disney”, brinca Rita. “Nunca fui à Disneylândia, mas a ansiedade e felicidade devem ser iguais ao que eu sentia”, destaca ela.

Imagem do quiosque da indústria de plásticos Icasa, durante uma edição da Fecin

Morador de Parnamirim quando criança e dos Aflitos quando adolescente, o empresário Manolo Cardoso frequentou a Fecin de forma assídua. “Na primeira metade da década de 1970, o parque tinha tobogã, trem fantasma, roda gigante e ocupava uma grande área da Jaqueira. Mais ou menos uns 60% do atual parque. Ficavam de fora o terreno do entorno da igreja e o resto era terreno baldio”, descreve. Manolo faz questão de frisar que nem tudo era positivo. “O projeto da Fecin era sazonal, entre dezembro e janeiro. E no resto do ano, a Jaqueira era um lugar abandonado, que ficava na escuridão total. Era perigoso e rolava prostituição escancarada, a céu aberto”, aponta.

Após o fim da Fecin – e de vários anos de abandono –  a Jaqueira encontrou sua real vocação e virou parque em 1984, durante a gestão do prefeito Joaquim Francisco. De lá para cá, o bairro valorizou-se a ponto de se tornar o metro quadrado mais caro do Recife. E mesmo quem era frequentador da Fecin, como é o caso da economista Sônia Oliveira, considera o Parque da Jaqueira como algo muito melhor para a cidade. “Tem um uso mais contínuo do espaço, beneficiando mais pessoas. Adoro o parque”, diz ela.



comment 4 comentários

  1. A xerox trouxe uma máquina gigantesca, com aquela "inovação" de copiar as coisas! Foi lá que conheci o tobogã.
  2. A Fecin era o passei mais esperado do ano ... ia muito feliz com meu pai que com uma paciência imensa me deixava brincar no tobogã, trem fantasma e tudo mais ... Saudade de um tempo maravilhoso.❤️

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