Das tesouras aos pincéis: o duplo talento de Cristiano Artur

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Fotos: Paula Melo/PorAqui

Uma cigarra de dimensões surreais e cheia de detalhes repousa eternamente na parede. Pelo chão, pelas mesas, pelas paredes, são quadros e mais quadros. Cadeiras, geladeira, tudo recende a arte. A casa de Cristiano Artur fica nas Graças, Zona Norte do Recife.  O artista plástico divide as horas do dia com o cabeleireiro. Nenhuma de suas faces têm maior preponderância. É bem-sucedido em ambas, esse artista nascido no Recife em 1966.

Diz que corta cabelos há 30 anos, mas é artista plástico há muito mais tempo. Lembra do primeiro curso que fez com uma japonesa, na Associação Cultural Brasil Japão, que na época era na Dantas Barreto, aos 13 anos.

O Centro da Cidade o deixava deslumbrado, ele, o jovem rapaz que vinha de Cavaleiro, em Jaboatão dos Guararapes, Região Metropolitana do Recife. “Foi uma espécie de abertura na minha cabeça conhecer a cidade”, relembra. Até hoje se divide entre Cavaleiro e as Graças. “O quartel general do salão é lá, na casa dos meus pais”, conta.

Tinha talento, mas precisava ganhar a vida. Foi ser vitrinista da falida Mesbla. Cortava peruca de manequins, entre outras funções, até que foi fazer um curso de corte de cabelo e viu que era hora de mudar de profissão. “Pedi pra sair da Mesbla. ‘Não vou ser mais vitrinista, vou ser cabeleireiro'”, resolveu. “Eu gosto muito de cortar cabelo, eu gosto do ato. É quase uma terapia pra mim”, confessa.

Tesouras x pincéis

O artista, no entanto, nunca saiu de cena. A repórter faz a mais óbvia das perguntas: “quem veio primeiro, o artista ou o cabeleireiro?”. Cristiano não pensa duas vezes. É tão firme na resposta (“O artista plástico. Desde pequeno. Eu comecei muito cedo”), que é capaz de deixar alguém com dúvidas sobre seu segundo talento. Mas não. Cristiano é igualmente talentoso com as tesouras e os pincéis. Trabalha com hora marcada. É estritamente pontual. Apesar do corte com ele custar R$ 140 (com a equipe é um pouco mais barato, R$ 90), sua agenda é disputada.

Graças

Assim como a casa onde mora e seu ateliê, o salão, também nas Graças, tem 15 anos. Primeira coisa que salta da boca de Cristiano quando indagado sobre o bairro que escolheu pra morar e trabalhar é a palavra “charme”. Peço pra ele explicar, apesar de saber muito bem do que ele está falando. “É um bairro que me acolheu muito bem. Ainda tem algumas casas, ainda tem árvore, você sai andando na rua – isso pra mim tem um certo charme –  você entra num café, vai num supermercado, na banca de revista, eu gosto muito disso num bairro”.

Sobre ser artista

Para Cristiano, não há conflito nenhum entre as duas vocações. Para ele. Mas o homem vê ainda um ranço da Academia quanto à sua forma de sobrevivência, afinal, vá viver de arte no Brasil. A tesoura é o ganha-pão, mas mesmo tendo enfrentado certo preconceito de seus pares, conta que foi acolhido por pessoas “bem bacanas e que acreditaram no meu trabalho como artista plástico”.

Além de cortes de cabelo, suas mãos talentosas desenham a nanquim e pintam a tinta óleo e aquarela. Como se autodefine, seu traço “é rápido e vibrante”. Faz também instalações e intervenções em objetos.

No currículo artístico, traz o curso com a japonesa, ainda adolescente, e um mais tarde, com o renomado Daniel Santiago. No mais, se diz um autodidata.

Na casa onde mora, no ateliê, no salão finamente decorado com obras de arte, uma música de lounge ao fundo, um chá gelado de gosto único, tudo é afinado com a figura elegante deste homem que não se deixa capturar por um conceito. Ele irá sempre além.

Quase no Espinheiro

O salão de Cristiano fica quase na divisa entre o bairro das Graças e o Espinheiro, na Rua Vigário Barreto, 31, Graças.

Telefone: (081) 3244-0570



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