A garota invisível que adquiriu superpoderes com uma prova de Enem

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Foto: Paula Melo/PorAqui

Beatriz Ferreira é uma menina baixinha, negra, de cabelos cacheados. Seu sorriso é capaz de lhe alcançar a uns bons metros de distância. Sua presença enche o espaço de uma energia boa, que quase dá para pegar com as mãos.

Mãos.

Elas são essenciais para Bia, que tem 19 anos e é surda. É com as duas mãos que Bia toca e se comunica, quando consegue, com o mundo. Ela conversou com o PorAqui com a ajuda do intérprete de LiBras Fernando Vilarim, que trabalha na Escola Governador Barbosa Lima, na Agamenon Magalhães com Joaquim Nabuco, no bairro das Graças, Zona Norte do Recife. É lá que Bia estuda.

Enem

Ontem, domingo (5), Bia era um dos 4.325.823 de participantes do Enem que tiveram em mãos a prova de redação cujo tema era “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil”.

Bia não consegue segurar a emoção. Apesar de não entender LiBras, percebo que o assunto mexe com ela através de suas expressões faciais e também pelas do intérprete. “A comunidade surda agradece muito ao MEC (Ministério da Educação). Os surdos estão muito felizes”, diz ela, falando em LiBras para Fernando.

A conversa flui de maneira muito especial, estamos ali compartilhando uma vitória – e olha que Bia celebra o Enem, mas, obviamente, não sabe se saiu bem na prova. “É uma forma de chamar a atenção do governo das nossas necessidades”, continua ela, em sinais que logo são traduzidos para mim. “Nós, surdos, estamos nesse universo de ouvintes. A gente precisa desse olhar de uma forma igualitária. Isso é o que a gente pode chamar de inclusão.”

Sobre a própria redação, ela conta que falou sobre respeito, acessibilidade, direitos iguais. Ela gosta da escola em que estuda. “Porque tem intérprete: uma forma de inclusão, acessibilidade e igualdade”, vai direto ao ponto.

“Independentemente do resultado, estou muito feliz, porque o tema está relacionado com a nossa história”, define Bia, que está se preparando para entrar, em breve, na faculdade de Odontologia. Mas, para ela, ter os olhos do Brasil voltados para a sua causa valem muito mais que um diploma. Ela deixou de ser invisível. Você sabe o que é isso?

Referência

Colégio estadual de referência, a Escola Governador Barbosa Lima recebe surdos vindos de todos os cantos do Recife. Dos 1.281 alunos, 158 são surdos, distribuídos nos três turnos. Tão comum quanto adolescentes conversando em português, lá, uma segunda língua é bastante percebida também: a Língua Brasileira de Sinais.

São, ao todo, 14 salas em que os intérpretes fazem dupla com o professor. Eles traduzem todas as aulas para os alunos surdos.

Segundo o gestor Erick Rangel, há turmas que chegam a ter mais de 20 surdos, mas esse não é o ideal. Quanto mais misturados com os ouvintes, acredita-se, melhor para a inclusão. “A gente tem que preparar os alunos não especiais para lidar com os especiais. Nos preocupamos com a inclusão na sala regular, desenvolvendo ações e projetos que estimulem a convivência”, enfatiza.

A vice-gestora Angélica Boa Hora complementa: “A gente percebe a diferença no aluno surdo a quem é dado autonomia”. Ela conta que, recentemente, alunos mais velhos foram transferidos do turno da manhã para o turno da noite, que tem mais adultos, e a mudança no comportamento foi visível.

“A cada dia a gente vence um desafio aqui”, encerra Erick.



comment 3 comentários

  1. Biaaaah, você foi incrível. Você e um ótima pessoa,mas eu confio por vc. Seus parabéns Bia. Arrsou Biah. Bjs pra vc!
  2. Muito feliz Meus amores Pedro e Larisa participam das aulas da lingua brasileira de sinais , e são apaixoanados . Sei que embora sendo crianças , hj entende a importancia das( libras) em suas vidas muito embora em seus social, poucosa convive com amiguinhos trazem essa deficiência.
  3. Pena que tiraram o curso de libras desta escola, onde era mais centralizado, e colocaram num local, onde ficou inviável, tive que desistir do curso, espero que o governo do estado possa disponibilizar um local no centro para o CAS .

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