Quem vê gíria não vê coração

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Imagem: Thiago Ramos/PorAqui

Em muitos lugares do mundo, o emprego de determinadas gírias ou o uso de expressões são indicadores de grupos sociais. Pode-se inferir até as classes econômicas às quais os falantes pertencem. Essa análise, entretanto, é impossível de ser feita no Recife ou em Olinda. Eis o porquê:

– Dale, pai!
– E aê, jogadô? Conta as novas!
– Tudo na merma. E tu, pirraia? Tirando muita onda ou te ajeitasse?
– Porra, parêa, tive que me organizar, né? Casei com a boyzinha, saí da casa de painho, comprei um carro. Aí, só de mizéra e arriação o cara não se sustenta. Tás morando lá na rua ainda? Se brincar derrubaram todas as casas. Passei lá recentemente e só tinha apertamento.
– E então, firma! Tinha me mudado faz uns cinco anos, desde que me juntei. Mas a gente se separou faz três meses e eu voltei a morar com mainha. Ela até perguntou por tu um dia desses. Eu disse que tu tinha sido preso por tráfico e homicídio qualificado, mas me esqueci de comentar que era brincadeira.
– HAHAHA! Que fuleiragem, monstro! Nunca fui preso por tráfico.
– HAHAHAHA! Homicídio já?
– Já. Matei mainha de desgosto quando fiz aquela tatuagem na batata da perna. HAHAHAHA!
– HAHAHA! Boa, mago! Pensava que ela tinha morrido de susto quando viu tua foto de perfil. Tu é pouco feio, vi?
– Bonito é esse teu hábito de comer catota! Tás pensando que é suplemento alimentar? Eca, doido!
– HAHAHAHAHAHA! Ei, dispense! Eu era pivete, boy. Graças a deus que não tinha câmera digital e telefone só servia pra discar e receber.
– Bote fé, faixa! Hoje em dia, eu desligo o celular pra cagar com medo que a câmera esteja gravando. Vai que…
– HAHAHAHA! Né isso?

Neste momento, abra-se uma porta e um jovem aparentando ter entre 20 e 25 anos aparece. Ele se dirige aos dois homens e fala:

– Doutores, a audiência foi remarcada para o próximo dia 31. Se os senhores quiserem tirar alguma dúvida com a juíza, por favor, me acompanhem.

O conteúdo das colaborações não reflete necessariamente a opinião dos editores do PorAqui.

Daniel Barros é recifense, formado em Letras pela UFPE. Atualmente mora no Derby, mas é cria da CDU. Come e bebe em demasia. Já tomou muita cerveja no Mercado da Encruzilhada.  Nos intervalos, anda de ônibus. Nesta vida, veio a passeio, mas ficou preso em Abreu e Lima. É conteudista colaborador do PorAqui para desperdiçar seu tempo.



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