Perdição: uma história do Galego do Peixe da Encruzilhada

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Foto: Eduardo Amorim/PorAqui

Nunca vi um homem daquele. Velho, mas forte. Sem estudos, mas fino. Aliás, gentileza era sua marca. Um cara que apesar da dureza da vida nunca deixou de ser educado.

Seu papel nos últimos dias era vender peixe. Chegava cedo ao Mercado da Encruzilhada e lá, entre escamas e barbatanas, ganhava seu pão. No passado, vendia dinheiro, fazia “qualquer negócio”, inclusive, por gostar muito de carros (também já foi mecânico), era o melhor piloto de fuga que a Zona Norte do Recife já conheceu.

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Galego do Peixe, não se sabe em que momento exato, se perdeu. Tomou cachaça e não parou mais. E foi entre vários copos de pinga que o conheci. Com ele aprendi que é feio mentir, muito mais quando é pra nós mesmos, e por isso devemos manter nossa cara do jeito que ela é, sem medo, deixem que julguem.

Foto: Eduardo Amorim/PorAqui

Galego do Peixe. “E o que me importa?”, indagava ele quando alguém o chamava pelo apelido, quando alguém tentava ridicularizá-lo por causa de sua aparência. Aprendi que o bom é trabalhar, e com honestidade, mesmo que cheire mal, que caleje as mãos. Aprendi que os erros devem permanecer lá: no passado.

Galego do Peixe. A risada mais gostosa que já escutei alguém soltar. Parecia um pássaro que cantava depois de anos presos na gaiola. Aquela cara sisuda, cheia de barba, com aquela boca sem dente algum, parecia ser o muro que cerca as prisões. Mas aí algum preso fugia, e era aquela festa. Riso mágico.

Eu, em muitas vezes imerso na minha solidão, corria de casa só pra escutar aquele gargalhar, e então eu já não estava mais só. Meu melhor amigo morava na rua. Dormia bêbado. Tinha tuberculose, e sempre me ganhava dois, cinco reais, pra beber e fumar, mais. Bebe e fuma, Galego. Já vivesse tanto, não é mesmo? Um cigarro, um trago…

Foto: Eduardo Amorim/PorAqui

E as mulheres, Galego? Ah, as mulheres. Que delícia, que deleite. Elas queriam teu ouro, Galego. Queriam passear de Cadilac. Menos Rosa, né? Rosa permaneceu contigo e também virou mendiga. Teu ouro acabou. Carro só de mão, pra levar e trazer peixe. Mas quem tem Rosa não precisa de mais. Outra lição: valorizar o amor verdadeiro. Não importa o lixo, o que vale é o sentimento.

Além de saber amar, Galego também era bom no jogo. Dominó, buraco, porrinha e sinuca. Minha dupla não perdia. Juntos bebemos de graça, provocamos, apanhamos, batemos. Criamos nome no beco de Dona Zefinha, lá na “Coreia”. Pode vir que tem. Bota ficha, malandro. Um toque é cinco, uma batida é dez. Se botar a branca perde tudo. Bons tempos…

Por que o tempo tem que ser tão cruel? Por que essa maldade justo com quem mais gosta de viver? Tempo, tempo, tempo… fostes levando meu amigo aos poucos, mas intensamente. Tirastes o brilho dos olhos. Definhastes o corpo. Cadê minha risada, senhor tempo? Também fostes cruel comigo, ao me condenar à solidão. Pior: me fizestes testemunha do fim. Eu vi Galego cagado. Eu levantei Galego cagado e o coloquei sentado na cadeira daquele bar deplorável.

Quer cigarro, Galego? Um Derby, um Hollywood. Diga, que eu compro. Só quer água, né, meu mestre? Último gole.

Que dor foi ver o IML chegando. Que dor foi te ver saindo em uma maca suja de sangue. Teu corpo duro e inerte levou pra longe a inocência de uma criança.

*Conto inspirado em experiências da infância do autor na Encruzilhada



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