Mesmo sem ler, ‘Bigode’ dedica a vida à literatura

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O pequeno sebo fica no girador do baobá, por trás do Mercado da Encruzilhada (Foto: Júlio Rebelo)

A variedade é grande. Tem livros de receitas, botânica, cálculos contábeis e autoajuda. Há ainda edições para o Ensino Médio e algumas revistas tipo Cláudia e Marie Claire. Mas não é uma livraria. Na verdade, é o resultado de uma vida dedicada às trocas e vendas de usados.

Foi assim, por entre sílabas, letras e frases, que João Joaquim da Silva, popularmente conhecido como “Bigode”, encontrou na literatura um meio de viver. Sentado num banquinho, na frente do seu “ponto”, olhando para um gigante baobá, plantado no coração da Encruzilhada, aquele homem pequeno, atarracado, revela mexendo no bigode, que não sabe ler.

Ele explica: “Desde muito cedo, ainda pequeno, meu pai dizia que era preciso trabalhar. Escola era coisa de rico. Para ele, o que importava não eram as boas notas, e, sim, ter o que comer em casa”, justifica João, soltando um sorriso amarelo, meio sem graça.

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Pouca gente vai conhecer João Joaquim da Silva na Encruzilhada, mas a Banca do Bigode é ponto de referência (Foto: Júlio Rebelo)

O menino que não estudava, logo se viu tendo que se virar para conseguir ter algum trocado no bolso. Suou muito como pintor, vigilante, segurança e camelô. E foi justamente nos tabuleiros montados no Centro da cidade que João, já homem feito, viu uma chance de se estabelecer: as revistas para adultos.

“Consegui juntar uma boa quantidade de Playboy. Percebi que tinha gente que pagava um bom dinheiro pra ver as pessoas peladas”, revela o homem simples, às gargalhadas.

As mudanças

Do centro à Encruzilhada, não foi só o endereço que mudou na vida de João. O que antes era um bom negócio agora o constrangia. Não aguentava os olhares de reprovação de quem passava na calçada da Av. João de Barros, ali pertinho do Bradesco (seu antigo ponto).

Não demorou muito e ele trocou Cláudia Ohana e Luíza Brunet por Machado de Assis e Fernando Pessoa. “A mudança foi até melhor. Pude conhecer outras pessoas, que passaram a vender e comprar livros comigo. Até crianças e mulheres”, destaca.

Artista plástico Fernando Peres deve pintar o pequeno sebo em breve (Imagem: Google Street View 2011)

Por sua fama, Bigode foi até motivo de reportagens. O povo ficava curioso como alguém que vivia “no meio” dos livros não sabia ler. E numa dessas entrevistas, conheceu duas senhoras que se comprometeram a ensiná-lo.

No entanto, a empreitada não deu certo. Os horários não batiam, e assim João não conseguiu se alfabetizar. “Incomoda muito viver essa contradição. Mas já estou velho e sei que fica ainda mais difícil aprender”, lamenta.

Para quem quiser trocar uma ideia, além de livros, a banquinha de João fica na Rua Pedro Alves, em frente ao baobá, no bairro da Encruzilhada. Ele também aceita doações e espera conseguir reformar sua banca.



comment 1 comentário

  1. Show!!! Ótima matéria. Bigode é seu demi são referências no Bairro da Encruzilhada e assim como outros ícones (Tepan, Bragantino, Cachaçaria Minha Deusa, o falecido Bode Dourado) fazem do bairro um dos mais queridos e tradicionais do Recife.

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