Um barquinho escondido que atravessa o Capibaribe por R$ 1

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Foto: Marina Suassuna/PorAqui

Em Casa Forte, na Zona Norte do Recife, a Rua Marquês de Tamandaré é bastante conhecida por causa do acesso ao Barchef, que fica em frente ao The Cave. A rua, que tem um dos baobás mais grandiosos e antigos do Recife, possui também um Jardim Secreto. Mas o que pouca gente sabe é que no finalzinho da rua, no limite do jardim, existe um atalho que facilita a vida de quem precisa se deslocar mais rápido para os bairros da Zona Oeste e por um custo baixíssimo.

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Escondido pela vegetação abundante que permeia as margens do Rio Capibaribe, Antonio José da Cunha, mais conhecido como Pai, passa o dia num eterno vai e vem, transportando de bote quem precisa atravessar a margem do rio para ir trabalhar, estudar ou resolver seus compromissos.

Foto: Raynaia Uchôa

A travessia Poço da Panela/Iputinga é feita pela sua família há quase 70 anos. Começou com seu avô, quando Pai ainda nem era nascido. Ele assumiu a tarefa ainda adolescente e vive disso há mais de 30 anos.

A viagem dura cerca de 2 minutos e cada trecho custa R$ 1. O serviço funciona de domingo a domingo, das 4h30 às 19h.  O bote de madeira é puxado por Pai com auxílio de uma corda que fica amarrada de uma margem à outra do rio.

Pai é barqueiro no Poço da Panela há mais de 30 anos – Foto: Marina Suassuna/PorAqui

“Aqui nunca deixa de ter movimento, principalmente no verão. Tem horas que o movimento é tão grande que eu quero dar uma urinada, tomar uma água e não tenho tempo”, diz o barqueiro. Quando ele precisa almoçar ou se ausentar por algum motivo, quem assume o bote é seu tio e também barqueiro Mário, mais conhecido como Maruca.

O movimento deve aumentar ainda mais com a recuperação do Jardim Secreto, que está sendo realizada pela Associação dos Amigos e Moradores do Poço da Panela – AMAPP com apoio do Projeto Parque Capibaribe, no terreno que margeia a travessia.

Mais rápido e econômico

Enquanto a reportagem do PorAqui esteve no local, por cerca de 40 minutos, dividimos o bote com vários passageiros que costumam usar o transporte alternativo.

Dona Ione e Seu Adeildo moram na Iputinga e recorrem ao percurso de bote sempre que precisam ir ao Centro Médico Hermírio de Moraes, na Avenida 17 de agosto. “A gente economiza muito tempo. Depois que descemos do barco, é só andar até a avenida e já estamos a poucos metros do Hospital. Antes a gente pegava duas conduções”, conta Dona Ione.

Outra cliente do barqueiro, Grécia Oliveira Queiroz mora na Iputinga, Zona Oeste do Recife, e trabalha na Macaxeira, Zona Norte. Ela pega o bote todo dia, anda cerca de 5 minutos até a Avenida 17 de agosto, onde embarca no ônibus Parnamirim/Macaxeira.

“Antes eu tinha que pegar um ônibus até a integração da Caxangá, de lá pegava outro pra integração da Macaxeira e ainda pegava um ônibus complementar pra chegar até o trabalho. Depois que descobri esse barquinho, foi a minha salvação”, compara. “O trajeto por aqui é mais seguro, mais tranquilo e eu adoro a natureza”.

Ação do tempo

Criado ali, nas margens do rio, Pai foi testemunha das mudanças do bairro e da consequente degradação do Capibaribe.

“Antigamente, sempre tinha peixe pulando, todo mundo pescando. Era pesca de arrastão, com jereré também e com linha. Às vezes, quando o peixe pulava, batia em algum cliente que tava no barco, ou se não caía dentro do barco. Hoje não pula mais nada. É só tristeza”, lamenta.

Seu tio, Maruca, lembra que “era tanto siri que dava pra fazer um prato cheio. Antigamente, parecia uma praia, vinha gente de todo lugar tomar banho aqui. Os crentes vinham batizar seus filhos no rio porque a água era cristalina, dava pra ver o pé.”

Maruca rende o sobrinho nos intervalos – Foto: Marina Suassuna/PorAqui

“Eu subia no bote todo molhado quando era menino e trazia a água pra dentro do barco, não tava nem aí, a água era limpa”, relembra Pai. “A gente tomava tanto banho que incomodava quem passava pra ir trabalhar, de tanto que a gente batia os pés na água. O pessoal ficava tudo reclamando”, conta aos risos.



comment 5 comentários

  1. Se o Estado opressor descobre que esse cidadão está fazendo transporte irregular de passageiros e ganhando seu dinheirinho, vai botar a polícia em cima do coitado, prender o seu barco, matando o sonho do trabalhador.
    1. Que exagero! O estado tem conhecimento desse barquinho. Funciona que nem o que tem na Jaqueira/Torre. Também há uns 60 anos.
  2. Por isso que digo sempre quero conhecer primeiro meu Recife de ponta a ponta depois meu pernambuco e meu nordeste e o meu Brasil . Fui taxista aqui em Recife já rodei demais mais não conheço detalhes da minha cidade!
  3. É uma covardia ver o grande Capibaribe ser assassinado aos poucos por anos à fio. Um governo justo mencionado por Jesus em Mateus 6:10, irá restaurar não só o Capibaribe, mas toda a terra. E parabéns a esse trabalhador.
  4. Recife tão lindo, com tantos encantos,tantas formas de melhorar o seu transporte dando mais conforto as pessoas e infelizmente não fazem.

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