Setembro da depressão: a doença mais incapacitante do mundo

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“I didn’t want to wake up. I was having a much better time asleep. And that’s really sad. It was almost like a reverse nightmare, like when you wake up from a nightmare you’re so relieved. I woke up into a nightmare.”

(Ned Vizzini, It’s Kind of a Funny Story)

Até o momento, neste tão esperado século XXI, as mortes por depressão cresceram 705% no Brasil, segundo consta no DataSUS. A inovação de que todos esperavam neste século da ultratecnologia, com a resolução dos problemas cansativos e insalubres como coletar lixo ou complexos como pôr em prática um sistema de transporte eficiente, está sendo aquém de dar uma resposta às mortes voluntárias.

As mortes por suicídio só perdem para doenças coronárias e alguns poucos tipos de câncer, mas matam mais que guerras, Aids e as chamadas “doenças infecciosas do 3º mundo”. O Brasil é “1º mundo” em diagnóstico de transtorno de ansiedade generalizada e o quinto em casos de depressão. Leia.

Mas chegamos ao Setembro Amarelo. Mês de prevenção, de divulgação para evitar suicídios, a maioria dos quais associada a sintomas prévios de depressão, embora não conste nos registros do Ministério da Saúde. Cerca de 350 milhões de pessoas convivem com a doença no mundo e próximo de 1 milhão se suicidam anualmente, muito mais homens que mulheres. Veja aqui.

Os principais fatores ligados ao suicídio são depressão, velhice, perdas financeiras e fins de relacionamentos. Frisando que essas causas podem se combinar. Então, nos casos mais graves, a taxa de suicídio sobe para 15.

Quase ninguém sabe, até acho que pouca gente imagina, mas eu sou bem sensível a esse tipo de debate porque, sim, infelizmente convivo com a depressão desde mais ou menos os 15 anos de idade. Com momentos de dores menos lancinantes que outros em que dispara um gatilho e eu, que para os conhecidos pareço tão ativo, não consigo sequer comer por dias.

Nada mais certa que aquela frase famosa nas redes sociais: “Seja sempre gentil, todas as pessoas que você conhece estão enfrentando batalhas que você não sabe nada a respeito”.

Durante minha vida, sempre percebi que a maioria me julgava pela aparência “burguesa”, aprovações em primeiros lugares em seleções e posição no mercado de trabalho. E isso gerava uma conclusão geral sobre minha vida sob o Sol: “tudo maravilha”.

Isso sempre me deu uma angústia enorme, porque além da depressão, tinha/tenho responsabilidades “precoces” de que nunca pude abrir mão para, por exemplo, curtir a vida adoidado como Ferris Bueller. E pior, sempre sentindo muita vergonha de “não ter motivo pra não ser feliz da vida”. Mas já li que isso também é um sintoma da depressão e atualmente sustento bem com a vergonha.

Existem várias causas para a doença. Experiências específicas marcantes na infância e adolescência, distúrbio no funcionamento de neurotransmissores e até processos de preconceito, alguma deficiência física que a pessoa não aceita e sofre para esconder, estigma e exclusão social reiterados.

Por ora, não há cura. O que tem pra hoje são remédios nem sempre eficazes, que exigem disciplina e extrema paciência do paciente (não foi um trocadilho), encontros profissionais com terapeutas, esportes, atividade física, relacionamentos profundos com amigos, espiritualidade, namoros maduros e, por fim, mas não menos importante, trocar estresse por tesão no trabalho.

Isso indica de forma direta a grande responsabilidade dos gestores na saúde psíquica das equipes de trabalho. Veja aqui.

Ao longo dos tantos anos convivendo com essa doença, já perdi oportunidades profissionais, pessoas maravilhosas e momentos de paz em locais paradisíacos. Posso dar o testemunho que o que mais me ajudou foi ter ciência das causas, não ter medo nem sentimento de culpa em reconhecer emoções nem sempre tão nobres dentro de nós mesmos e que geram a tal tristeza crônica.

Cercar-se de amigos íntimos, profundos, também é crucial, além de fazer de tudo para praticar amor profundamente com sua família. Essas são as primeiras medidas. Mas, por incrível que pareça, são as mais fáceis.

A mais difícil deixei pro final: valorize-se e se orgulhe do que você sabe fazer de bom pro mundo. Isso serve desde jogar futebol bem até construir pontes. É um sentido altruísta, e não pedante, voltando suas qualidades em direção ao mundo, AME-SE.

Mesmo que pessoas em quem você confiava lhe abandonem friamente, ou não tenham paciência com sua falta de ânimo, seus medos; mesmo que muitos se afastem porque você simplesmente não comparece às cervejas das sextas-feiras, etc. Apesar de tudo isso, de qualquer coisa, o mais difícil é o que eu acabei de dizer, ame-se, aceite-se, busque qualquer coisa para se tornar competente e oferecer pro mundo.

Vale frisar, claro, que os verdadeiros amigos, os que lhe amam de verdade, vão gostar de você independente da sua competência. E essa é mais uma notícia boa: do mesmo jeito que amamos sem grandes razões aparentes, também nós, depressivos, somos amados.

Estranho isso, não? Se você, assim como eu não acreditava em milagres e fazia odes ao ceticismo, receba de bom grado esta verdade: somos programados para o amor, somos feitos de amor e ainda buscamos o amor no outro quando falta em nós.

O amor sempre chega porque ele é hiper demandado, prazeroso de ser ofertado a qualquer um que seja gentil e que, se possível (mas não é condição necessária), possa também nos ajudar em algo. Veja aqui.

Devo ter recebido energia de alguma entidade espiritual e muita sorte para conseguir, depois de passar em seis concursos públicos, um cargo que me permite trabalhar com o que admiro na vida, Estatística, e me orgulhar muito da utilidade pública do meu trabalho.

Esses fatores sempre salvaram a minha vida da depressão, dão-me, na verdade, é uma sobrevida e continuo produtivo (neste momento nem tanto como gostaria). Foi só com muitíssimo esforço, quase sobre-humano para um depressivo, que terminei um primeiro semestre num mestrado muito bom, estudando Cognição Estatística em Daniel Kahneman, ficando com nota dez… em todas sete matérias em que me matriculei ao mesmo tempo.

Estou fazendo questão de dizer isso e pouco me importando se vão me achar arrogante. Quero apenas mostrar para todos que estão em desespero que é possível, sim, continuar, com disciplina e esforço.

Para quem enfrenta a depressão, o cotidiano de competição e a labuta não fazem sentido, doem mais que para a média. Então é necessário se esforçar muito mais para obter resultados medíocres. Somos “burros” se relaxarmos… Mas podemos obter sucesso se não dormirmos. É um inferno, mas é a nossa vida. E sempre bem acompanhada, independente dos resultados, da síndrome do impostor.

Custa muito caro conviver com a depressão, mas não desista de você. Mesmo que a doença piore e eu não consiga manter o rendimento, e vir a perder o mestrado, vir a morrer, vir a ficar surdo, vir a errar em tudo, que assim seja. Mas nós, que convivemos com a depressão, não temos outra escolha. Nossa única opção é morrer tentando, e jamais viver tentando morrer.

É a lição mais preciosa que aprendi com meus amigos que me amam e nunca me abandonaram e que quero dividir aqui com todos os leitores.

Neste momento, pesquisando para meu trabalho na UFPE , chego num capítulo de Daniel Kahneman que resume bem tudo que a mente e o corpo precisam desempenhar todo santo dia contra depressão. O conteúdo não trata da doença, mas vale a pena pôr a imagem aqui para enaltecer atitudes que ajudam na convivência com a depressão.


Divulguem o setembro amarelo. É importante.

PS: Não deixe de ler também o que inspirou o título:
http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2014/12/1563458-depressao-ja-e-a-doenca-mais-incapacitante-afirma-a-oms.shtml

Sobre o autor

Romero Maia é morador de Parnamirim, Zona Norte do Recife. Trabalha como Analista de Informações Estatísticas do IBGE, e cursou pós-graduações em Administração Pública, Gestão Ambiental e Ciência Política. Também presta atividades de consultor em gestão ambiental, planejamento e avaliação de políticas públicas e gerenciamento de projetos.

Professor, escritor e músico diletante em todas as horas vagas. Mantém o blog Despertador: um blog pra acordar, que também tem uma página no Facebook.

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