Patrimônio do Poço da Panela, Seu Vital conta sua história, gostos e vida no bairro

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Por Gabriela Belém

Extrair uma entrevista com personagens monossilábicos torna-se uma tarefa árdua, que só os jornalistas (dos mais jovens aos mais experientes) sabem bem como é. Entrevistar Seu Vital (de personalidade retraída, ou um ‘bicho-do-mato’, como divertidamente é lembrado pelos amigos mais íntimos), parecia uma missão impossível.

Após alguma insistência e ajuda dos habitués da sua Venda, a mais famosa do Poço da Panela há cerca de 50 anos, conseguimos entender um pouco mais sobre a história deste lutador, tricolor e empreendedor de 76 anos, um verdadeiro patrimônio vivo local. Confira:

(foto: Gabriela Belém/PorAqui)

Ex-gago

Sim, uma pessoa pode se cuidar da gagueira. Um exemplo é Seu Vital. “Até os 15 anos eu era gago, muito gago mesmo, mas depois me curei, do nada”, conta. “Eu gosto de conversar com gente gaga, porque já passei por isso. Quando dizem: ‘bote-bote’ já sei que querem dois pães doces”.

Infância sofrida

Em 1951, a sua família se mudou de Bezerros, sua cidade natal, pro Recife. “Viemos todos, eu, meu pai e minha mãe, que já foram embora pro outro lado da linha”.

Ele já carregou ‘água de ganho’, que levava pras favelas (segundo Seu Vital, é a água que vem dos chafarizes e era paga por um frete pra quem a levasse em casa), no comércio, ‘ajeitou’ paralelepípedo nas ruas e trabalhou como empregado doméstico, na estrada do Encanamento, onde morava o seu tio.

“Agora, hoje em dia, é empregado doméstico que dizem. Mas na época me chamavam de cachorro de quintal. Era uma tristeza”, recorda a lembrança de quando tinha 11 anos.

“Meu pai não sabia ler e nem escrever mas era muito inteligente. Feito o ‘veio’ aqui é também um tiquinho. Aí ele viu aquela situação e arrumou uma casa pra família no alto da favela, alugada”.

“Tudo de bom eu fiz, graças a Deus. E consegui construir a minha vida, minha família e minha casa. Tô contado a minha vida todinha já, não tô, não?”, brinca.

O campeonato de dominó

Valter Lima, vizinho de Seu Vital (e um dos fundadores do bloco Os Barba), vai à venda todos os dias. Ele nos ajudou a contar algumas peculiaridades do movimento por ali.

(foto: Gabriela Belém/PorAqui)

“Eu saio de um portão e entro no outro”, diz. E o ponto de encontro de uma turma assídua é diário mesmo, já no período da tarde, quando a venda abre. Um clássico entre os habitués, a liga de dominó tem até troféu.

Os participantes saem de casa e do trabalho e vêm bater as pedras em mesas na calçada, como nas casas de interior. Aliás, o Poço é um pequeno refúgio bucólico e interiorano, no coração da urbana e cosmopolita Casa Forte. “Não apostamos dinheiro, nada, é só uma brincadeira”, conta Valter.

Fizeram um campeonato, mas o regulamento era muito complicado e deu errado. “Tinha repescagem, aí Seu Vital se arretou. Existe campeonato de dominó com repescagem?”, questiona o escritor e jornalista Samarone Lima, que também contribuiu para a entrevista.

(foto: Gabriela Belém/PorAqui)

“Uma dupla de perdedores jogava com outra dupla de perdedores… Isso não existe”, ri Valter. Previsto para durar 72 horas, o campeonato durou dois meses, segundo Seu Vital. Após inúmeras partidas, ninguém levou as taças pra casa. “Terminou empate na final: 20 a 20”, lembra Valter.

Juazeiro do Norte, uma paixão

Outra curiosidade é que, todos os anos, no mês de outubro, Seu Vital vai a Juazeiro do Norte, há mais “de 420 anos”, de acordo com Samarone. “Este ano, se estiver vivo e com um tiquinho de saúde, irei de novo”, diz.

As cheias que arrasaram o Poço da Panela –e a sua Venda

“Em 1966 teve cheia, mas eu não morava nesta casa ao lado da venda. Morava no Poço, mas não aqui. Em 1970, eu já morava por aqui e deu 1 metro e 80 cm de água dentro de casa. Em 1975, foram 2 metros e 95 centímetros de água”, aponta, mostrando as marcas ainda existentes na parede.

“Em 1977, foi mais baixo um pouquinho, deu 2m e 20 cm”, explica. Todas as vezes, ele conseguiu se reerguer após as perdas. “Perdi tudo, em todas elas. Mas não perdi foi nada. Estou aqui vivo e isso é o que importa”, lembra.

Um tricolor forrózeiro

A época mais animada do ano em Seu Vital ocorre um mês antes do São João, quando ocorrem as sextas-feiras com os forrós pé-de-serra, organizados pelos amigos e com o aval dele no local. Aquela aglomeração no pátio do Poço e dentro da venda pra ralar bucho é um dos eventos mais aguardados no calendário dos moradores e conhecidos de fora.

“Quem não gosta de forró não gosta de mais nada nessa vida”, segundo Seu Vital, que se soltou um pouco mais na entrevista após a repórter revelar que era tricolor, fiel torcedora do Santa Cruz, como ele.

Trabalho infantil

“Venho de uma época em que a criançada podia trabalhar. Comecei a trabalhar eu nem falava direito ainda, na enxada, limpando o mato, com sete pra oito anos. Continuo trabalhando até hoje, se for vivo, em 1º de maio, meu aniversário, até os meus 77 anos”.

E que Seu Vital permaneça com muita saúde e novos anos de vida, pois é, de fato, uma das figuras mais simbólicas e queridas da identidade cultural do Poço da Panela.


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