Edifício Acaiaca: um caso de amor e de referência arquitetônica

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Por Rachel Motta, do PorAqui

A Av. Boa Viagem de hoje é tomada por arranha-céus, mas o cenário era outro na metade do século passado, quando, nos anos 50, foi erguido o Edifício Acaiaca. Ícone na orla da capital pernambucana, o prédio é ponto de encontro na praia há várias gerações. 

Nasceu como um local destinado a veraneio, já que era assim que o bairro era visto em seus primórdios. Não se passaram muitos anos até que as famílias descobrissem o quão encantador seria morar em frente ao mar. Foi assim com os Berenstein, por exemplo, que trocaram, há quase quatro décadas, a Rua José de Alencar, na Boa Vista, pelo Acaiaca. 

Quem conta a história é a aposentada Sosia Berenstein, uma das mais antigas moradoras do local. 

“Meu irmão Boris estava lendo o jornal quando viu o anúncio desse apartamento para alugar. Ele morou um ano conosco e foi embora ao se casar. Dois anos depois, a então proprietária, dona Sofia Lemos Dubeux, resolveu vender. Minha mãe disse que comprava. Ela era uma judia danada, muito inteligente. Trabalhava e tinha dinheiro guardado. Então, comprou à vista. Naquele tempo era mais fácil comprar”, lembra Sosia sobre os feitos de sua mãe Pola Berenstein, imigrante judia do leste europeu, que sobreviveu ao nazismo no final da Segunda Guerra Mundial.

Sosia, que perdeu a mãe recentemente, nem pensa em sair do imóvel, apesar dos comentários das amigas. “Eu adoro minha casa e me sinto muito bem aqui. Sou apaixonada pelo Acaiaca. É um paraíso. Daqui só vou para o cemitério”, brinca.

Para a aposentada, o Acaiaca é um paraíso pela sua localização privilegiada. “Faço tudo a pé. Não preciso de carro nem táxi”, afirma. Outra vantagem, segundo Sosia, é o tamanho do apartamento, de 195 m², com quartos e banheiros espaçosos, o que não se vê nas novas construções. 

O prédio possui 11 andares com 44 apartamentos divididos em dois blocos. São dois apartamentos por andar em cada bloco. Sete funcionários se dividem com os cuidados do edifício. 

Sosia só se queixa quando o assunto é a violência na Av. Boa Viagem. “Antigamente era melhor, porque não tinha assalto nem arrastão”, lamenta. A moradora conta que, se for caminhar no calçadão, só leva a chave. Outro hábito que Sosia teve que mudar foram os banhos de mar, que ela adora, por causa dos tubarões.

ARQUITETURA – Segundo o professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Luiz Amorim, o Acaiaca é uma das soluções oferecidas pelos arquitetos Delfim Amorim e Lúcio Estelita para o problema do edifício vertical moderno destinado à moradia. 

“As características da edificação quando da sua construção, no final dos anos de 1950, o destacaram na paisagem litorânea por sua dimensão, verticalidade e simplicidade volumétrica”, analisa. De acordo com Amorim, o Acaiaca tem propriedades arquitetônicas inusitadas.

(foto: Thiago Wagner/acervo NE10)

“As janelas horizontais contínuas voltadas para a paisagem marítima, a aplicação de azulejos desenhados por Amorim para o revestimento das fachadas e o uso do peitoril ventilado para garantir a plena circulação no interior dos apartamentos, mesmo com as janelas fechadas, tornaram-no elemento de referência urbana”, observa.

O cenário que se formou diante do Acaiaca também contribui para torná-lo um personagem tão fundamental na memória afetiva do pernambucano. “Determinados valores relacionados aos usuários da praia de Boa Viagem na frente do edifício agregaram outras dimensões socioculturais ao Acaiaca, como a contracultura, nos anos de 1960 e início dos anos de 1970”, recorda.

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